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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Miss Universe: globalização, racismo e mercado do corpo?

                               
                                                                                                                               
                                                                                        Ubiracy de Souza Braga*


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* Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).






                   “O conceito universal do belo entrou em declínio com a modernidade”. Samuel Chaim Katz


        Gabriela Isler (Venezuela), vencedora do concurso multinacional denominado: “Miss Universe” (2013).

            Escólio: Chamamos de “conceito” o que Platão parece demonstrar não como culto ao belo, posto que só tivesse validade se correspondesse a uma “essência no mundo das ideias”. A busca platônica pelo belo, o bom e o justo fixam-se na história do Ocidente em torno da busca do “belo em si”. Com as grandes religiões, o belo situa-se sempre fora da experiência sensível. Seria o divino aquilo que o humano tem como referência e que tenta alcançar. Para sermos breves, Immanuel Kant realiza uma virada, dizendo que é impossível ter uma regra universal acerca do belo, pois todo juízo a respeito do belo é singular, determinado pelo gosto; não há mais uma determinação dita “universalizante”. Ao mesmo tempo, se para Kant, apesar de o gosto ser singular, todo mundo tem faculdades semelhantes; portanto a decisão sobre o que é belo se rompe com a universalização, mas as condições são universalizáveis. Contudo, a descrição de Michel Foucault sobre Erasmo (c. 1466-1536) no livro: “Elogio da Loucura”, de Erasmo, não há mais essa universalização. Para um homem bem velho que tem dinheiro, por exemplo, essas questões sobre o belo não aparecem. A loucura interna a cada um, sim, é universal, mas que não trataremos agora.

Tese: O Brasil pode ter ganhado cinco Copas do Mundo, e a Argentina, 22 Taças Libertadores da América, mas quando se trata de mulher bonita, nenhum país da América Latina é páreo para a Venezuela. O país já conquistou seis títulos do concurso “Miss Universo”, e só fica atrás dos Estados Unidos, que têm oito por razões óbvias: origem e significado comercial da competição. Como se não bastasse, em 2009 a pátria de Chávez entrou para o Livro Guinness dos Recordes ao se tornar o primeiro país a conquistar o título por dois anos consecutivos em 2008 e 2009. A trajetória que levou as venezuelanas ao topo do ranking mundial da beleza começou em 1952, quando a “Panamerican Airways” (Pan Am) idealizou o concurso Miss Venezuela para escolher a representante do país no então recém-criado “Miss Universo”, concurso de beleza realizado nos Estados Unidos para escolher a mulher mais bela do mundo. Com o passar dos anos, a competição virou um fenômeno de público na Venezuela e, a partir da década de 1970, passou a ser transmitido em cadeia nacional pelo canal Venevisión e se tornou o programa de televisão mais assistido do país.
              Foto: As cinco finalistas do concurso “Miss Universo”, ano 2013.  Alexander Nemenov/AFP.
A Venezuela, oficialmente República Bolivariana da Venezuela, é um país tropical, na costa norte da América do Sul. O país possui várias ilhas fora de seu território continental situadas em sua costa no mar do Caribe (português brasileiro) ou mar das Caraíbas (português europeu). A república é uma antiga colônia espanhola que conquistou a sua Independência em 1821. A Venezuela tem fronteiras com a Guiana a leste, com o Brasil ao sul e com a Colômbia a oeste. Os países Trinidad e Tobago, Granada, São Vicente e Granadinas, Santa Lúcia e Barbados, além de Curaçao e Aruba, que são países constituintes do Reino dos Países Baixos, e a municipalidade neerlandesa de “Bonaire”, estão a norte, ao largo da costa venezuelana. Sua área territorial é de 916 445 km², sendo o 32º maior país no mundo em território. Sua população é estimada em 28 892 735 habitantes e a capital nacional é Caracas. As cores da bandeira venezuelana são o amarelo, azul e vermelho, nessa ordem: o amarelo representa a riqueza da terra, o azul o mar e o céu do país, e o vermelho o sangue derramado pelos heróis da Independência. A Venezuela está entre os países mais urbanizados da América Latina; a grande maioria dos venezuelanos vive nas cidades do norte, especialmente na capital Caracas, que é também a maior cidade do país. 
 
                                       Visão parcial de Caracas com seus teleféricos.
Do ponto de vista estético não demorou muito para que a Venezuela emplacasse uma “Miss Universe”: em 1979, Maritza Sayalero se tornou a primeira representante do país a conquistar a coroa. Dali em diante, o feito foi repetido por Irene Sáez em 1981, Bárbara Palacios em 1986, Alicia Machado em 1996 e pela dobradinha Dayana Mendoza em 2008 e Stefania Fernandez em 2009. Todas essas conquistas apontavam para um novo status dos concursos de beleza: “inteligência, os valores pessoais e a capacidade liderança da mulher”, os quais fizeram com que o concurso Miss Venezuela, realizado todo ano entre setembro e outubro em Caracas, passasse a ser transmitido pela Venevisión para toda a América Latina, num processo midiático aparentemente de “incomunicação” (cf. Sfez, 2000; Menezes, 2005), como se referem alguns teóricos dos mass mídia e até para os Estados Unidos. No último dia 10 de outubro foi realizada a edição de 2013, que coroou Migbelis Castellanos como a nova Miss Venezuela. A corporação Venevisión é uma rede de televisão da Venezuela, sendo a principal deste país.
É comandado pelo magnata Gustavo Cisneros, que a adquiriu em 1960. Foi criada no dia 4 de maio de 1953 com o nome de “Venezolana de Televisión, SA”. A companhia foi a falência em 1960, quando Diego Cisneros comprou o restante da sociedade. Em, 1961 e Venevisión foi inaugurada em definitivo com um show inaugural. O canal era transmitido ao vivo, pois ainda a emissora não tinha o “videotape”, com a exceção dos noticiários onde eram exibidos em filme. Em 1961 a emissora assinou um acordo com a rede de televisão norte-americana ABC, para apoios técnicos e direitos civis de emissão de programas de TV. Na década de 1970 a emissora passou a testar o sistema de transmissão em cores e em 1986 passou a transmitir via parabólica, sendo a primeira da Venezuela. Em 1994 passou a operar 24 horas por dia e em 2007 transmitiu o Miss Venezuela e a Copa América em “alta definição”.
                   
Marelisa Gibson, Miss Venezuela, disputou o Miss Universo em 2010. Foto: Jerryn LV/Shutterstock.
No caso brasileiro, Vera Fischer foi coroada Miss Brasil no de 1969 aos 18 anos. Nascida em uma família de origem alemã, em 1951, na cidade de Blumenau, no Vale do Itajaí, Santa Catarina. Em recente autobiografia (cf. Serena, 2011) declarou “que seu pai era nazista”. Vera Fischer, contrariando Freud (1972), nunca teve uma boa relação com o pai. Iniciou a carreira como atriz fazendo pornochanchadas, um gênero de filmes brasileiros que fez parte do popularesco nas décadas de 1970 e início da década de 1980, mas em sua démarche passou a fazer telenovelas, cinema e teatro. No cinema, interpretou personagens antinômicos de Rubem Fonseca, Plínio Marcos e Nelson Rodrigues. A beleza física da atriz é um dos seus pontos altos, para lembramos de Vinícius de Moraes, quando afirma: “que me desculpem as feias, mas beleza é fundamental”, o que reitera as edições da revista Playboy (cf. Braga, 2012) de agosto de 1982 e de janeiro de 2000, sendo que nesse último ensaio fez fotos nuas em Paris aos 48 anos clicados pelo renomado fotógrafo Bob Wolfenson.
Nos primeiros dez anos do concurso de 1952 a 1962 diversas coroas foram usadas pelas vencedoras do concurso. De 1960 a 1990, o “Juramento da Miss Universo” foi lido após a coroação de cada vencedora. Sempre em “off”, primeiro por uma co-apresentadora e depois pela voz gravada da eleita em inglês: - “We, the young women of the universe, believe people everywhere are seeking peace, tolerance and mutual understanding. We pledge to spread this message in every way we can, wherever we go” (- Nós, as jovens mulheres do universo, acreditamos que as pessoas de todos os lugares buscam a paz, a tolerância e o entendimento mútuo. Nós prometemos difundir esta mensagem de todas as maneiras que pudermos, em todos os lugares que formos”). Em 1963 uma coroa com mais de mil diamantes e ouro branco confeccionada por uma joalheria norte-americana passou a ser utilizada como a coroa oficial. O modelo foi usado por 38 anos de 1963 a 2001. A coroa usada pela vencedora do concurso entre 2002 e 2007 foi desenhada pela joalheria japonesa Mikimoto, patrocinadora oficial da “Miss Universe Organization” nestes anos.
Ela descreve a ascensão da Fênix, símbolo mitológico do poder, da beleza e do status. A coroa tem 500 diamantes num total de quase 30 quilates, 120 pérolas de tamanhos entre 3 e 18 mm de diâmetro e tem o valor de U$250 mil dólares. Foi criada pelos artesãos japoneses especialmente para o concurso na Ilha da Pérola Mikimoto, no Japão. A partir de 2009, uma nova coroa criada pela empresa Diamond Nexus Labs passou a ser usada para a coroação. Ela foi incrustada com 1.371 gemas num total de 16,09 quilates (83.22 g) e contém 544,31 gramas de ouro branco e platina. A coroa também foi manufaturada com rubis sintéticos que representam a plataforma de educação e precauções contra doenças sexualmente transmissíveis. Entretanto, quando foi usada no primeiro ano, pela venezuelana Stefania Fernández, Miss Universo 2009, acabou ficando tão pesada que provocava dores de cabeça. Com isso, ela foi reformulada e tornada mais leve, sendo retirado o arco superior, passando a ter a forma atual usada a partir da Miss Universo 2010, Ximena Navarrete. A nova coroa da Diamond Nexus na cabeça da Miss Universo 2011, Leila Lopes (foto).
Instantes após vencer o concurso de “Miss Universo” na noite de segunda-feira (12/11/2011), em São Paulo, a angolana Leila Lopes, de 25 anos, passou a receber ofensas racistas na rede mundial de computadores - internet pelo fato de ser negra e bela. Mensagens em português e em inglês postadas num site internacional que se define “nacionalista branco e possuem adeptos do ditador nazista Adolf Hitler” compararam a ganhadora do título de mais bela do mundo a uma “macaca”, contrariando Charles Darwin que admitiu que o homem é o centro da espécie. A brasileira Priscila Machado, 25 anos, que ficou em terceiro lugar, também sofreu insultos, sendo chamada de “crocodilo”. A miss Ucrânia Olesia Stefa, de 23 anos, segunda colocada no concurso, foi “garfada” na opinião de alguns dos participantes dos fóruns de discussão “Miss Universo 2011” e “Angolan negress crowned Miss Universe” do Stormfront. A sigla refere-se à chamada “Comunidade Stormfront de Nacionalistas Brancos” representada no site da internet que se define como: “Fórum para discussões racialistas para ativistas pró-Brancos e interessados na sobrevivência dos Brancos”. Foi iniciado em 1990. O Stormfront tem mais de 60 000 membros racistas registrados por todo o mundo, sendo aproximadamente 33 000 dos EUA, 20 000 da Europa e o restante no âmbito da América Latina, África do Sul e Austrália. Além de Don Black, o Stormfront conta com diversos políticos e ativistas da causa racialista de todo o mundo, como David Duke, Paul Fromm e Jurgen Graf, dos EUA, Reino Unido e Suíça, respectivamente.
                                  

                                      A beleza fulgurante de Leila Lopes (2009).
O discurso racista fora expresso da seguinte forma: - “Confesso que nem assisti, pois já imaginava o que viria a acontecer. Agora só falta Hollywood chamar a vencedora para fazer o papel da filha do King Kong”, afirma outro integrante na página do Stormfront, sobre a escolha da nova miss Universa. Este diz morar em Santa Catarina. Outro membro se mostra revoltado ao afirmar que a escolha de uma negra, na opinião dele, é uma ofensa às europeias. - “Sabia que ia dar preta… como uma Miss Universa no Brasil não escolheria uma preta? E olha que cara horrível, cabelo repulsivo, como consegue escolher uma coisa dessas? Eu me indigno, não com os jurados, que são comprados para promover tais afrontas à cultura europeia, mas sim com as ovelhas que assistem isso e acham normais”, diz um participante que afirma morar no Rio Grande do Sul. Outro integrante racista do stormfronter, como os membros do site se referem um a outro, alega que as mensagens postadas no site não são ofensivas e não incitam o preconceito. - “Até porque não estamos pregando a intolerância/ódio, apenas nos divertindo com a situação. Sabíamos que ia acabar em várzea…”, diz um participante. Esse “gênio” não percebe que racismo é crime dentro e fora do Brasil e não diversão. Essa é a particularidade do racismo contemporâneo (cf. Braga, 2011).   
O racismo é a tendência do pensamento, ou o “modo de pensar”, em que se dá grande importância à noção da existência de raças humanas distintas e superiores umas às outras, normalmente relacionando características físicas hereditárias a determinados traços de caráter e inteligência ou manifestações culturais. O racismo não é uma teoria científica, mas um conjunto de opiniões pré-concebidas que valorizam as diferenças biológicas entre os seres humanos, atribuindo superioridade a alguns de acordo com a matriz racial. A crença da existência de raças superiores e inferiores foram utilizadas muitas vezes para justificar a escravidão, o domínio de determinados povos por outros, e os genocídios que ocorreram durante toda a história da humanidade e ao complexo de inferioridade, se sentindo, muitos povos, como inferiores aos europeus.
Embora existam classificações raciais propostas pelas mais diversas correntes científicas, pode-se dizer que a taxonomia referencia uma oscilação de cinco a duas centenas de raças humanas espalhadas pelo planeta, além de micro raças regionais, locais ou geográficas que ocorrem devido ao isolamento de grupos de indivíduos que cruzam entre si. Portanto, a separação racial torna-se completamente irracional em função das composições raciais, das miscigenações, recomposições e padronizações em nível de espécie que houve desde o início da caminhada da humanidade sobre o planeta. Todas as raças provêm de um só tronco, o Homo sapiens, portanto o patrimônio hereditário dos humanos é comum. E isto por si só não justifica o racismo, pois as raças não são nem superiores, nem inferiores, são apenas diferentes. E a diferença e a diversidade é o que constitui o princípio de vida em qualquer sistema vivo.
Vera Fischer foi coroada Miss Brasil no ano de 1969, e por pouco não “abocanha”, na falta de melhor expressão, também o prêmio de Miss Universo, chegando a ser semifinalista. Nos anos seguintes, ela seguiu carreira como atriz, conseguindo grande destaque em filmes e novelas até os dias de hoje - e também muita polêmica graças à sua atribulada vida pessoal. Um dos principais papéis de Vera Fischer nas novelas foi em “Mandala”, de 1987. Escrita por Dias Gomes, era uma adaptação do clássico “Sófocles Édipo Rei”, onde a atriz interpretava a personagem Jocasta. “Mandala” foi extremamente polêmica, lidando com assuntos como incesto, bissexualismo, drogas, etc. e é também lembrada por ser a novela cuja música tema era o “hino trasher” da cantora Rosana, “O Amor e O Poder”, como vemos abaixo:

“A música na sombra/O ritmo no ar/Um animal que ronda/No véu do luar/Eu saio dos seus olhos/Eu rolo pelo chão/Feito um amor que queima/ Magia negra, sedução/Como uma deusa/Você me mantém/E as coisas que você me diz/Me levam além/Aqui nesse lugar/Não há rainha ou rei/Há uma mulher e um homem/Trocando sonhos fora da lei/Como uma deusa/Você me mantém/E as coisas que você me diz/Me levam além/Tão perto das lendas/Tão longe do fim/Afim de dividir/No fundo do prazer/O amor e poder/A música na sombra/O ritmo no ar/Um animal que ronda/No véu do luar/Tão perto das lendas/Tão longe do fim/Afim de dividir/No fundo do prazer/O amor e poder/Como uma deusa/Você me mantém/E as coisas que você me diz/Me levam além/Tão perto das lendas/Tão longe do fim/Afim de dividir/No fundo do prazer/O amor e poder/Como uma deusa/Você me mantém/E as coisas que você me diz/Me levam além”.


            Já demonstrei noutro lugar (cf. Braga, 2010), que chamamos de “conceito” o que Platão parece “demonstrar” não como “culto” ao belo, posto que só tivesse validade se correspondesse a uma “essência no mundo das ideias”. Mas a busca platônica pelo belo, o bom e o justo ficam na história do Ocidente para buscar o “belo em si”. Com as grandes religiões, o belo situa-se sempre fora da experiência sensível. Seria o divino aquilo que o humano tem como referência e que tenta alcançar. Para sermos breves, Kant realiza uma virada, dizendo que é impossível ter uma regra universal acerca do belo, pois todo juízo a respeito do belo é singular, determinado pelo gosto; não há mais uma determinação “universalizante”. Ao mesmo tempo, se para Kant, apesar de o gosto ser singular, todo mundo tem faculdades semelhantes; portanto a decisão sobre o que é belo se rompe com a universalização, mas as condições são universalizáveis.
Gabriela Isler, representante da Venezuela, é a nova vencedora do concurso multinacional denominado: “Miss Universe”. Ela venceu as outras 85 candidatas de diversas nacionalidades no concurso de 2013, realizado neste sábado (9/11) em Moscou, na Rússia. Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil ficou em quinto lugar, com Jakelyne Oliveira, de 20 anos, natural de Mato Grosso. No ano passado, a Miss Brasil 2012, a gaúcha Gabriela Markus, de 24 anos, também ficou na quinta colocação. Agora, a venezuelana sucede a norte-americana Olivia Culpo, vencedora em 2012. A cerimônia de coroação ocorreu no “Crocus City Mall”, uma grande sala de concertos da cidade. Em segundo lugar ficou a espanhola Patricia Rodriguez, em terceiro, a equatoriana Constanza Baez, e em quarto, a filipina Ariella Arida. As candidatas foram julgadas em três categorias: traje de banho, traje de noite e entrevista. Dias antes do concurso Miss Universo, são realizadas as provas preliminares de traje e para a escolha do melhor traje típico dentro de um evento intitulado: “Presentation Show”. Os resultados são mantidos sob sigilo até o dia do concurso.   
Historicamente o concurso de Miss Universo é inspirado no antigo “International Pageant of Pulchritude”, que dentre o período de 1926 a 1935, se realizava anualmente, atribuindo o título de “Miss Universo” à vencedora. Entre nós, a gaúcha Yolanda Pereira foi a primeira e a única brasileira a conquistar o título em sua versão antiga, em 1930 - sem nenhuma relação com o evento posterior - quando houve dois concursos, um nos EUA e outro no Brasil. No pós-guerra, organizou-se novamente o concurso, com novas modelos e a competição voltou a acontecer a partir de 1952. Em 1950, o concurso “Miss América”, prêmio nacional de beleza norte-americano até então existente, foi realizado sob o patrocínio dos maiôs Catalina. Então, em 1952, no balneário norte-americano de Long Beach, completamente reconstruído após um terremoto em 1933, aconteceu a primeira edição do concurso. Com um investimento de US$1 milhão, uma fortuna, ontem como hoje, e a participação de 29 concorrentes de boa parte do mundo, além de participantes de estados norte-americanos, em que a Miss Havaí foi a segunda colocada, a finlandesa Armi Kuusela foi a vencedora, recebendo o prêmio máximo, um contrato com a Universal. Desde então, o concurso se realiza anualmente. Um fato ocorrido durante o ano de reinado de Kuusela acabaria criando regras mais rígidas para o concurso dali em diante. Numa de suas inúmeras viagens pelo mundo, ela conheceu um empresário filipino em Manila, por quem se apaixonou à primeira vista, mas ao que parece, neste caso, amor e poder não se combinam.   

                                  
                                      Dorothy Britton, Miss Universo 1927.
“Con un record de público el evento de Galveston reunió a más de 5,000 personas que permanecieron hasta casi la una de la madrugada esperando el resultado final. - Las chicas que participaron este año han sido sin duda las más lindas que se hayan visto en los ocho años de concursos en Galveston - comentaban algunos -. El imponente escenario, con un arreglo muy atractivo de cortinas tornasol de terciopelo negro, estaba dispuesto al fondo, por donde las bellezas hacían su entrada a una pasarela entre la concurrencia. Las concursantes norteamericanas fueron las primeras en ser presentadas, luciendo sus trajes de noche exquisitamente elaborados. Todas las muchachas se veían preciosas. Más adelante posarían en sus tenidas de baño”.  

            De 1978 a 2002 era comum ver as notas das misses na TV para saber quem tinha passado e quem não tinha chances de ir às semifinais, bem como as notas de maiô, entrevista individual e trajes de gala. Mas o que determinava a classificação de uma candidata a Miss Universo era a média das notas das preliminares. Terminadas as provas de maiô, entrevista e trajes de gala, aparecia uma última ponderação de notas, desta vez para determinar as cinco finalistas. A partir de 2000, a entrevista passou a ser restrita às cinco finalistas. Com as mudanças na classificação implantadas em 1990, a entrevista final era feita para as misses do “top 6” e posteriormente às três primeiras finalistas, saídas do “top 6” até 1997 e “top 5” de 1998 a 2000. Em 2001, as cinco finalistas voltaram a ser submetidas a essa prova, o que acontece até hoje. As notas chegaram a ficar extintas entre 2003 a 2006, mas a partir de 2007, as notas parciais voltaram a ser divulgadas pela TV, somente nos desfiles de Traje de Banho e o Traje de Gala. A partir de 2011 as notas dadas pelos jurados as candidatas voltaram a ser mantidas em sigilo.           
                       
A vencedora, Yolanda Betbeze, porém, se recusou a posar para fotos vestindo os trajes de banho da patrocinadora. A atitude de Yolanda apontava para um novo status dos concursos de beleza: “inteligência, os valores pessoais e a capacidade liderança da mulher”. Olivia Culpo corou Gabriela Isler, “Miss Universo” de 2013 e ainda desfilou com um traje de banho avaliado em US$ 1 milhão. Ela venceu as outras 85 candidatas de diversas nacionalidades no concurso de 2013, realizado neste sábado (9/11) em Moscou, na Rússia. Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil ficou em quinto lugar, com Jakelyne Oliveira, de 20 anos, natural de Mato Grosso. A Miss Brasil 2012, a gaúcha Gabriela Markus, de 24 anos, também ficou na quinta colocação. Ora, antropologicamente falando, o concurso Miss Universo, nada mais é do que a representação dos ritos de passagem enquanto celebrações que marcam mudanças de status de uma pessoa no seio de sua comunidade ou nação.                            
A relação afetiva (Freud) foi tão fulminante que a Miss Universa abandonou as obrigações com a organização ao meio e voou com o empresário para Tóquio, no Japão, onde se casaram, e ela renunciou à coroa nos dias seguintes. O fato fez com que a partir dali mulheres casadas não pudessem mais participar do evento e, oficialmente, as regras passaram a estipular que caso uma “Miss Universa” não pudesse por qualquer motivo completar seu mandato, ela seria imediatamente substituída pela segunda colocada, que assumiria o título e as obrigações decorrentes dele pelo restante do mandato anual. Entre 1952 e 1971, todas as edições do concurso foram realizadas nos Estados Unidos, divididos entre a Califórnia e a Flórida. A partir daí, espalhou-se pelo mundo, globalizando-se em cidades anfitriãs na Ásia, Europa, Oceania, África, Caribe e América do Sul. Nos primeiros anos, o certame esteve sob a responsabilidade da empresa de vestuário Pacific-Mills e teve como patrocinador principal a marca de maiôs Catalina.
Mais tarde, foi vendido para a empresa Kayser-Roth. Em 1977, a Kayser-Roth foi comprada pela Gulf + Western Industries, então dona dos estúdios de cinema Paramount. Em 1996, Donald Trump comprou os direitos comerciais do concurso em parceria com a rede CBS, então geradora em nível internacional. No final de 2002, Donald Trump revenderia dois contratos relativos aos direitos de transmissão: a) um com a rede NBC, para transmissão em território norte-americano que incluiria uma transmissão em espanhol por sua subsidiária, a Telemundo e outro, b) com a empresa Alfred Haber, para a distribuição internacional do evento. Desde junho de 2002, o concurso vem sendo realizado numa parceria entre a “Miss Universe Organization”, baseada em Nova Iorque (cf. Braga, 2012), e a rede de televisão NBC. A atual presidente é Paula Shugart. A organização também vende comercialmente, os direitos de transmissão da final para outros países, além de produzir e organizar o concurso “Miss USA” e o concurso “Miss Teen USA”. A vencedora do concurso “Miss USA” representa o país no âmbito “Miss Universo”. Temos assim a globalização do corpo e sua comercialização transnacional em crescente escala global. O céu já não é mais o limite! Enfim, a partir de 2012, a Miss Universe Organization passou a aceitar transexuais nos eventos organizados por ela, o concurso: “Miss Universa”, “Miss USA”, “Miss Canadá” e “Miss Teen USA”, - “deixando a critério das suas franqueadas autorizarem ou não a participação de transexuais em seus concursos nacionais”.
   Gabriela Isler quando foi anunciada como uma das finalistas do concurso. Foto: Alexander Nemenov/AFP.
Embora o ano de 2010 tenha sido marcado positivamente por um movimento “pró-beleza natural”, com revistas estampando atrizes sem “photoshop” e modelos “plus size”, as mulheres ainda desejam ser magras e continuam a buscar a uma aparência perfeita. Para a psicanalista carioca Joana de Vilhena Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social (LIPIS) da PUC-Rio, antes de fazer qualquer crítica ao culto extremado ao corpo e à vaidade, é preciso contextualizar a “corpolatria”, pois para ela, - “vivemos um momento histórico sem utopias ou ideais. A sociedade não luta por causas sociais, por um bem comum, daí o narcisismo”. Homens e mulheres enxergam o próprio corpo como seu maior bem, como um projeto a ser sempre aperfeiçoado. Além disso, Joana é pós-doutoranda em Clínica Médica (UERJ), pós-doutora em Psicologia Social (UERJ), doutora em Psicologia Clínica (PUC-Rio). Pesquisadora correspondente do Centre de Recherches Psychanalyse et Médecine -Université Denis-Diderot Paris 7 CRPM-Pandora, autora dos livros O intolerável peso da feiúra. Sobre as mulheres e seus corpos. Ed. PUC/Garamond (2006) e Com que corpo eu vou? Sociabilidade e usos do corpo nas mulheres das camadas altas e populares. Ed. PUC/Pallas.(2010). Especialista em Transtornos Alimentares, consultora de campanhas publicitárias ligadas à estética e à saúde feminina.  
Para Joana Vilhena Novaes, que é autora dos livros: “O Intolerável Peso da Feiúra – Sobre as Mulheres e Seus Corpos” (Ed. PUC/Garamond) e, “Com que Corpo Eu Vou? – Sociabilidade e Usos do Corpo nas Mulheres das Camadas Altas e Populares” (Ed. PUC/Pallas), é impossível desprezar, ainda, a importância econômica deste setor, o da beleza, que movimenta bilhões de reais – leia-se: Spas, academias, clínicas de estética, cirurgias plásticas, cosméticos, salões etc. Há quem analise a “corpolatria” (cf. Braga, 2011) como uma forma de repressão, mas houve outros períodos históricos que também “satanizaram” o corpo, como na época vitoriana, quando a sexualidade era reprimida ao extremo. Mas convém colocar uma questão mais geral a propósito desse típico “individualismo”, ou “individuação” que se invoca tão frequentemente para explicar, em épocas diferentes, fenômenos bem diversos. Sob tal categoria misturam-se, frequentemente realidades completamente diferentes. De fato, convém distinguir três aspectos: a) a atitude individualista, caracterizada pelo valor absoluto que se atribui ao indivíduo em sua singularidade e pelo grau de independência que lhe é atribuído em relação ao grupo ao qual ele pertence ou às instituições das quais ele depende; b) a valorização da vida privada, ou seja, a importância reconhecida às relações familiares, às formas de atividade doméstica e ao campo de interesses patrimoniais; e, c) finalmente, a intensidade das relações sociais para consigo, isto é, através das formas nas quais se é chamado a tomar a si próprio como objeto de conhecimento e campo de ação para transformar-se, corrigir-se, purificar-se e promover a própria salvação.



 Bibliografia geral consultada:
MITCHELL, Juliet, “Mulheres: a Revolução mais Longa”. In: Revista Civilização Brasileira, nº 14. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1967; PROCHET, Neyza, “Corpo, Identidade e Globalização”. Disponível no site: http://www.achegas.net/numero/30/; BARTRA, Roger, El Modo de Produción Asiático. México: Edicoines Era, 1969; Idem, Breve Dicionário de Sociologia Marxista. México: Editorial Grijalbo, 1973; SAFFIOTI, Heleieth, “Relaciones de sexo y de classes sociales”. In: LA MUJER en America Latina. Ciudad de México: Sepsetentas, 1975, v. 2; Idem, A mulher na sociedade de classes. Petrópolis (RJ): Vozes, 1976; KATZ, Samuel, Psicanálise e Instituição. Documentário, 1977; Idem, Ética e Psicanálise: uma introdução. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984; Idem, Freud e as psicoses: Primeiros estudos. São Paulo: Xenon, 1994; Idem, O coração distante. Ensaio sobre a solidão positiva. Rio de Janeiro: Revan, 1996; PARKER, Richard G., Corpos, Prazeres e Paixões. A Cultura Sexual no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Best Seller, 1987; Artigo: “Gabriela Isler, da Venezuela, é eleita a nova Miss Universo”. Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/11/; Artigo: “Venezuela é campeã latino-americana de mulheres bonitas”. Disponível em: http://vidaeestilo.terra.com.br/; Artigo: “A dona da faixa – pela sétima vez, uma venezuelana recebe o título de Miss Universo”. In: Diário do Nordeste, Caderno Zoeira. Fortaleza, Ceará, 12.11.2013; FOUCAULT, Michel, Arqueologia do Saber. Petrópolis (RJ): Vozes, 1971; Idem, El Orden del Discurso. Barcelona: Tusquets, 1973; Idem, História da Sexualidade. Rio de Janeiro: Graal, 1977, 3 volumes; BAUMAN, Zygmunt, Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Zahar, 1999; VILAÇA, Nízia, Em pauta: corpo, globalização e novas tecnologias. Rio de Janeiro: Mauad/CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 1999; BRAGA, Ubiracy de Souza, “50 Anos de Playboy: A Revista mais Censurada do Mundo”. Disponível em: http://httpestudosviquianosblogspotcom.br/2012/11/06/; Idem, “O que há por trás da beleza de New York?. Disponível em: http://www.dihitt.com/n/arte-cultura/2012/05/08/; Idem, “Há 50 Anos o Mundo (en) Canta Garota de Ipanema”. Disponível em: http://estudosviquianos.blogspot.com.br/2012/03/; Idem, “Vera Fischer e a complexidade real de uma deusa”. Disponível em: http://cienciasocialceara.blogspot.com.br/2011/10/; Idem, “A particularidade do racismo contemporâneo: o belo”. Disponível em: http://cienciasocialceara.blogspot.com.br/2011/09/; Idem, “Corpolatria: patologia da modernidade?”. Disponível em: http://www.oreconcavo.com.br/2011/01/27/; Idem, “Prolegômenos sobre o cuidado de si, de Michel Foucault”. In: Jornal O Povo. Fortaleza, 23.12. 2006; Idem, “Prolegômenos sobre o cuidado de si, de Michel Foucault”. Republicado e disponível no site: http://secundonetoblogspot.com/2008/03; CANEVACCI, Massimo (Org. e Introdução), Dialética da Família. 1ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1981; SFEZ, Lucien, Crítica da Comunicação. São Paulo: Edições Loyola, 2000; MENEZES, José Eugênio de O. (org.), Os Meios da Incomunicação. São Paulo: Annablume; CISC, 2005; WOLTON, Dominique, É Preciso Salvar a Comunicação. São Paulo: Editora Paulus, 2006; NIETZSCHE, Friedrich, Crepúsculo dos ídolos, ou, Como se filosofa com o martelo. São Paulo: Companhia das Letras, 2006; Idem, A Vontade de Poder. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008; GODINHO, Neide Maria de Oliveira, O impacto das migrações na constituição genética de populações latino-americanas. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2008, entre outros.


sábado, 7 de julho de 2012

Dica de filme: Gen pés descalços




SINOPSE
Um espectador desavisado pode achar que Gen Pés Descalços é mais uma animação "bonitinha" sobre um menino e sua família, enfrentando as dificuldades da vida, e até seria, se não fosse pelo fato de que a história se passa em 1945, na cidade de Hiroshima, e de sabermos o que vai acontecer.
Gen é um animê baseado em um mangá da Shonen Jump (1973-1974) que mostra os efeitos dramáticos da guerra sobre uma família de Hiroshima vistos pelos olhos de um menino e os desdobramentos funestos da bomba nuclear lançada pelos americanos.
O caos pós-bomba é o ambiente em que Gen vai tentar sobreviver, vendo seu mundo literalmente ser corroído pelos efeitos devastadores da bomba.
Mas, mesmo com tanto sofrimento, Gen Pés Descalços ainda consegue fazer sorrir, mesmo que isso seja entre lágrimas.

ASSISTA O FILME NA INTEGRA AQUI!!






Para quem quer exibir em sala de aula esse trecho pode ser interessante:




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quarta-feira, 28 de março de 2012

I CURSO BRASILEIRO INTERDISCIPLINAR EM DIREITOS HUMANOS


23/MAR/2012 -Abertas pré-inscrições para o 1ª Curso Brasileiro Interdisciplinar em Direitos Humanos
Data: 23/03/2012
Estão abertas as pré-inscrições para o I Curso Brasileiro Interdisciplinar em Direitos Humanos: Os Direitos Humanos desde a Dimensão da Pobreza. As inscrições para o curso, que será realizado entre os dias 18 a 29 do mês de junho, em Fortaleza/CE, podem ser feitas até o dia 30 deste mês.    


Realizado pelo Instituto Brasileiro de Direitos Humanos e o Instituto Interamericano de Direitos Humanos, em parceria com a Procuradoria Geral do Estado do Ceará e a Universidade de Fortaleza – UNIFOR, o evento espera receber 120 participantes dos mais diversos estados, que receberão palestras de professores do Brasil e de outros países como Argentina, Uruguai, Chile, Venezuela e Espanha.


Durante o curso serão debatidos temas relacionados à pobreza, iniquidade, discriminação e a justiça nas políticas públicas. Constam também da programação estudos de casos, trabalhos em grupo, painéis e visitas a projetos de inclusão social, prisões e centros de internação de adolescentes em conflito com lei.


Os candidatos devem fazer a pré-inscrição no endereço eletrônico: http://www.ibdh.org.br/.


I Curso Brasileiro Interdisciplinar em Direitos Humanos: Os Direitos Humanos desde a Dimensão da Pobreza
Data: 18 a 29 de junho
Local: Fortaleza-CE, no Hotel Blue Tree

sábado, 17 de dezembro de 2011

A “obesidade mental” da meritocracia no Brasil


                                  A “obesidade mental” da meritocracia no Brasil.

                                                                                               Ubiracy de Souza Braga*
_______________
* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).


                               “O estandarte do sanatório geral vai passar...”
(Chico Buarque e Francis Hime).
A palavra meritocracia provavelmente tenha aparecido pela primeira vez no livro de Michael Young, “Rise of the Meritocracy” (1958), um opúsculo de 180 páginas. Tudo isso se inverte nas economias da Terceira Onda, na expressão Alvin Toffler (1980), escritor e futurista norte-americano, conhecido pelos seus escritos sobre a “revolução digital”, a “revolução das comunicações” e a “singularidade tecnológica”, nas quais o conhecimento é a principal forma de capital. Ora, os testes de QI surgiram na China, e começaram realmente a ficar conhecidos e utilizados como uma fonte importante no século XX, na França. Young utilizou a palavra “mérito” num sentido pejorativo, mas mérito significa “habilidade, inteligência e esforço”, embora haja arbitrariedade nas suas formas de escolha racional.
A meritocracia está associada ao “Estado burocrático”, para lembramos de Max Weber (1958; 1965; 1967; 1982; 1992), sine ira et studio, sendo “a forma pela qual os funcionários estatais são selecionados para seus postos de acordo com sua capacidade em serem aprovados através de concursos públicos de provas e títulos”. Ou ainda - associação mais comum - aos exames de ingresso ou avaliação nas escolas e universidades, nos quais não há discriminação entre os alunos quanto ao conteúdo das perguntas ou temas propostos. Assim, meritocracia também indica “posições” ou “colocações” conseguidas por “mérito pessoal”. Um modelo de meritocracia é dado por um método “no qual o que é considerado como sendo verdade é justamente definido pelo mérito”.
Os principais argumentos da meritocracia são: a) é que ela proporciona maior justiça do que outros sistemas hierárquicos, uma vez que as distinções não se dão por sexo ou raça, nem por riqueza ou “posição social”, entre outros fatores biológicos ou culturais, nem mesmo em termos de “discriminação positiva”. Portanto, b) a meritocracia através da “competição entre os indivíduos”, estimula assim, o aumento da produtividade e eficiência. Governos e organismos meritocráticos aparentemente enfatizam “talento, educação formal e competência”, em lugar de diferenças existentes, tais como estratificação social, classe social, relações de parentesco, etnia, ou sexo.
            O primeiro grande sistema analisado por Weber (1958; 1982; 1992) é a milenar civilização chinesa. Ele revisa os pressupostos econômicos (1992) e político (1965; 1967) do mundo chinês, particularmente no ensaio, “Os Letrados Chineses” (1982), onde o papel do imperador e das províncias e, em especial, a função dos mandarins (burocratas), o que introduz um caráter ritualista e tradicional no confucionismo, voltado para o culto dos antepassados familiares e do imperador: o universo é entendido como “uma ordem eterna” - Tao - que “não pode ser contestada e ao qual o indivíduo se adapta”. O confucionismo (儒學) é um sistema filosófico chinês criado por Kung-Fu-Tzu (Confúcio).
Entre as preocupações do confucionismo estão a moral, a política, a pedagogia e a religião. Conhecida pelos chineses como “Junchaio” (ensinamentos dos sábios). Fundamentada nos ensinamentos de seu mestre, o confucionismo encontrou uma continuidade histórica única. Além de tradição religiosa, o confucionismo é considerado uma filosofia, ética social, ideologia política, tradição literária e um “modo de vida”. Confúcio, forma latina de Kung Fu Tsé, filósofo chinês do século VI a. C, compila e organiza antigas tradições da sabedoria chinesa e elabora uma doutrina assumida como oficial na China por mais de 25 séculos. Combatido como “reacionário” durante a Revolução Cultural chinesa (1966-1976), de Mao Tsé-tung e outros, no filme: 毛澤東 - 中国共产党 / “Mao Tsé-Tung - China Comunista”, o confucionismo “toma novo impulso após as recentes mudanças políticas no país”. Atualmente, com uma população superior a 1.300.000.000 habitantes, a República Popular da China situada na parte leste da Ásia tem 25% da população que se declaram adeptos do confucionismo.
Na China desenvolveu-se uma tendência mística chamada taoísmo, cujo fundador é Lao-Tsé, mas que foi tragada pela poderosa “força da magia”, razão pela qual a religião chinesa ficou imersa em um “jardim mágico”. Taoísmo ou daoismo refere-se a uma tradição filosófica e religiosa que tem influenciado os povos do leste da Ásia há mais de 2.500 anos. A palavra 道, “tao” (ou “dao”), dependendo do esquema de romanização, é frequentemente traduzido como “caminho” ou “o caminho”, mas com inumeráveis nuances na mitologia e filosofia chinesa. Desta forma, ela não desenvolveu um potencial de racionalização prática das condutas.
Desnecessário dizer que a ideia de formação, treinamento e educação na ocupação dos cargos nas estruturas burocráticas como a da formação do “homem culto”, educação para a vida, está amplamente desenvolvida no ensaio “Os Letrados Chineses” (1982). Nesse ensaio contido na obra póstuma organizada por Hans Gerth & Charles Wrigth Mills, intitulada Ensaios de Sociologia (1982), Max Weber apresenta-nos como a China organizou uma estrutura de formação e educação dos ocupantes de cargos em sua burocracia. Marianne Weber, nascida Marianne Schnitger, (1870-1954), foi esposa do sociólogo Max Weber e uma destacada feminista. Frau Weber era uma talentosa escritora independente que publicou uma autobiografia e vários livros sobre problemas femininos. Escreveu “Weber, uma biografia” nos anos seguintes à morte prematura do marido em 1920.
Uma das singularidades dessa formação está em seu caráter laico e literário. A relação da educação com a burocracia chinesa e o conjunto da sociedade aparece já no primeiro parágrafo, assim descrito pelo giant Max Weber:
“Durante doze séculos, a posição social na China foi determinada mais pelas qualificações para a ocupação de cargos do que pela riqueza. Essa qualificação, por sua vez, era determinada pela educação, e especialmente pelos exames. A China fizera da educação literária a medida do prestigio social de modo o mais exclusivo, muito mais do que na Europa durante o período dos humanistas, ou na Alemanha” (Weber, 1982: 471).
Essa educação dos letrados, funcionários, dava-lhes “prestígio e carisma”, não porque possuíssem qualidades ditas “sobrenaturais”, mas por dominar os conhecimentos da escrita e da literatura, legitimados pelos exames que comprovavam se a mente do candidato estava embebida de literatura e se ele possuía ou não os modos de pensar (verstehen) adequados a um homem culto e resultante do conhecimento da literatura. Weber propunha a unificação das ciências humanas integrando a “verstehen” (compreensão) e a “erklären” (explicação) em uma visão unitária de ciência. Em 1913, Weber publicou um escrito intitulado “Sobre Algumas Categorias da Sociologia Compreensiva” (cf. Silveira, 2006), salvo engano, primeiro esboço de seu método sociológico. Ele continuou a trabalhar sua concepção de sociologia durante os próximos anos em escrito encomendado para uma ampla coleção de textos econômicos e que, por esta razão, recebeu o nome de “Economia y Sociedad” (cf. Weber, 1992; 1235 páginas).
Para ele, em seu prólogo, metodologicamente, do ponto de vista da formulação ideal-típica:
“esta acrescentada univocidade se alcança em virtude da possibilidade de um optimum na adequação de sentido, tal como é perquirido na conceptualização sociológica. Por sua vez, esta adequação pode alcançar-se em sua forma mais plena - do que temos tratado, sobretudo até agora - mediante conceitos e regras racionais (racionais com ajustes aos fins). Não obstante, a sociologia busca também apreender mediante conceitos teóricos e adequados por seu sentido fenômenos irracionais (místicos, proféticos, pneumáticos, afetivos). Em todos os casos, racionais como irracionais, se distancia da realidade, servindo para o conhecimento desta na medida em que, mediante a indicação do grau de aproximação de um fenômeno histórico a um ou vários desses conceitos, ficam tais fenômenos ordenados conceitualmente” (Weber, 1992: 17, grifado no texto).
            Melhor dizendo, se quisermos neste aspecto evitarmos uma “leitura de segunda mão”, no prólogo à 4ª edição alemã, de acordo com Johannes Winckelmann,
“o plano de sua contribuição destinada ao Grundriss der Sozialökonomik, seção terceira: ´Economía y Sociedad`, Max Weber só o publicou, depois de aparecido o manuscrito anterior, no resumo da ´divisão da obra conjunta`, que inicialmente se juntou na forma de suplemento aos distintos volumes que foram aparecendo a partir do ano de 1914. Como queria que o manuscrito da parte mais antiga no foi objeto de refundição alguma, não deve surpreender que seus distintos elementos coincidam com o plano original. Assim, pois, este manifesta o pensamento relativo à composição da obra. Na continuidade, o manuscrito mais recente amplia a primeira de todas as seções até uma teoria classificadora compreensiva das categorias que, não obstante, permaneceu incompleta. O próprio plano de Max Weber para seu Grundriss der verstehenden Sociologie,  que se dá mais adiante a título de ilustração e para permitir a comparação, é o que tem servido ao conteúdo da presente edição” (Prólogo...Cf. Weber, 1992: VIII).
Após analisar a religião chinesa, Weber passa ao exame das “religiões de salvação”, nas quais existe uma relação de tensão com o mundo: daí a necessidade de um texto intermediário que explique as diferenças entre o misticismo (predominante nas esferas sociais do mundo oriental) e o ascetismo (predominante nas esferas sociais do mundo ocidental). Ipso facto ele também examina as tensões entre a ordem religiosa (regida por normas) e as ordens sociais do mundo moderno (regidas por uma racionalidade formal) e que, portanto, possuem sua “legalidade própria”. As esferas analisadas por Weber são a economia, o que é “economicamente determinado” a política, o que é representado pelo “poder e pelo partido político”, a arte através da “individualização das referências”, o erotismo e a ciência.
Vale lembrar que Max Weber e Friedrich Nietzsche foram influenciados por Wilhelm Richard Wagner (1813-1883) que foi um maestro, compositor, diretor de teatro e ensaísta alemão, primeiramente conhecido por suas óperas ou “dramas musicais”, como ele posteriormente chamou. As composições de Wagner, particularmente essas do fim do período, são notáveis por suas texturas complexas, harmonias ricas e orquestração, e o elaborado uso de leitmotiv: temas musicais associados com caráter individual, lugares, ideias ou outros elementos. O compositor influenciou significativamente também a literatura e a filosofia. Friedrich Nietzsche faz parte do seu círculo de contatos durante a década de 1870, e seu primeiro trabalho publicado Die Philosophie im Zeitalter der Griechen, propôs a música wagneriana como o renascimento intuição e intoxicação na cultura europeia em oposição à decadência do racionalismo, usando como referência Dioniso e Apolo. No século XX, W. H. Auden considerou Wagner como talvez um dos maiores gênios, enquanto Thomas Mann e Marcel Proust receberam grande influência, e discutiam o autor em suas novelas. Entretanto, nem toda reação a Wagner foi positiva. Por um tempo, a música da Alemanha foi divida entre os admiradores de Wagner e os de Johannes Brahms; este, com o auxílio do crítico Eduard Hanslick, adotava formas tradicionais e liderava um movimento conservador, contra as inovações de Wagner.
Como “fenômeno social”, na falta de melhor expressão, o poder é, portanto, uma relação social entre os homens, devendo acrescentar-se que se trata de uma relação triádica. Para definir certo poder, não basta especificar a pessoa ou o grupo que o detém e a pessoa ou o grupo que a ele está sujeito: ocorre determinar também a esfera de atividade à qual o poder se refere ou a “esfera do Poder”. A mesma pessoa ou o mesmo grupo pode ser submetido a vários tipos de poder relacionados com diversos campos. O poder do médico diz respeito à saúde; o do professor, à aprendizagem do saber; o empregador influencia o comportamento dos empregados, sobretudo na esfera econômica e na atividade profissional; e um superior militar, em tempo de guerra, dá ordens que comportam o uso da violência e a probabilidade de matar ou morrer.
No âmbito de uma “comunidade política”, como se dá o funcionamento da  estrutura da universidade, o “poder de A” (que pode ser, por exemplo, um órgão público ou um determinado grupo de pressão) pode dizer respeito à política urbanística; “o poder de B”, à política exterior em relação a certa área geográfica; o “poder de C” dirá respeito, enfim, à política educacional, e assim por diante. A esfera do Poder pode ser mais ou menos ampla e delimitada mais ou menos claramente. O poder que se funda sobre uma competência especial fica confinado ao âmbito dessa competência. Mas o poder político e o poder paterno abrangem, normalmente, uma esfera social muito ampla. Por sua vez, a esfera de poder de uma pessoa que ocupa um cargo numa organização formal (como é o caso do presidente ou do tesoureiro de uma associação) é definido de modo preciso e taxativo, enquanto que a esfera de poder de um chefe carismático não é precisada por antecipação e tende a ser ilimitada.
O “sistema de castas” vigente na Índia demonstra que também se trata de uma religião - chamada de hinduísmo - com fortes elementos tradicionais. As castas criam uma ordem hierárquica, no topo da qual estão os sacerdotes brâmanes, seguidos pelos guerreiros, depois os comerciantes e agricultores e, por fim, os demais trabalhadores. O intercâmbio entre os grupos sociais não é permitido e a única forma de evoluir na escala social é “a roda das encarnações”. O caráter sagrado das castas indianas foi rompido pela pregação de Buda. O Budismo conservou a ideia de reencarnação, mas ela se torna completamente individual e voltada para a dissolução do Eu. Tal crença difundiu-se por todo Oriente e constitui a grande matriz dos sistemas religiosos orientais, que possuem um componente acentuadamente místico.
O Clone, mutatis mutandis, é uma telenovela brasileira produzida pela Rede Globo. Escrita por Glória Perez, com direção-geral de Jayme Monjardim, Mário Márcio Bandarra e Marcos Schechtman, direção de Teresa Lampreia e Marcelo Travesso e direção de núcleo de Monjardim, foi a 61ª “novela das oito”, exibida pela emissora. O Clone teve seu primeiro capítulo exibido em 1 de outubro de 2001, substituindo Porto dos Milagres, e encerrando-se em 15 de junho de 2002, com um total de 221 capítulos, sendo substituída por Esperança. Teve 250 capítulos na versão internacional. A personagem vivida por Giovanna Antonelly fez sucesso e abusou das mudanças de visual durante a trama. Em momentos mais recatados, Jade ficava quase completamente coberta, em outros, aparecia deslumbrante em trajes árabes típicos.
Isto é o que marca a diferença na apropriação do patrimônio histórico reverenciado pela memória da universidade quando se trata como já disse alhures, do “batismo burocrático do saber” (cf. o filme With Honors, EUA, 1994. Direção de Alek Keshishian, 101 min.). Mal comparando, as estruturas de poder, pode-se afirmar sem temor a erro que a universidade pública (o ager publicus) no Brasil funciona como a sociedade de castas indiana, pois, como demonstra Louis Dumont em Homo Hierarchicus (Paris: Gallimard, 1966), a classificação de pessoas em hierarquias no sistema de castas da Índia provém do sistema de crenças religiosas, onde a mobilidade e a ascensão sociais eram proibidas e, ninguém por mais talentoso que fosse, poderia mover-se do lugar, o que em parte explica na história recente do país a chamada “evasão de cérebros” daquela sociedade para a norte-americana, no caso da física quântica, para ficarmos nesse exemplo. Entre nós é nessa acepção de Louis Dumont “como funciona no sistema de honra da Cabília” (“the sentiment of honour in Kabile society”) onde o valor de cada pessoa deriva-se de per-sonare, uma voz que “soa através” de uma máscara pública, é medido como padrão através de um detalhado código que permeia as relações familiares, as relações com a comunidade e as relações com o mundo exterior do poder.
Tese: Esse raciocínio se aplica às esferas simbólicas da universidade pública seja a nível local, regional ou nacional entre nós, no Brasil, e particularmente na região Nordeste, porque constituída em grande medida de controles ilusórios: polêmica, polícia, ascese, formalismo, zoologia; ou sobre um efeito de pathos: as “mutações culturais”; de encenação de corpus: biografias, fluxos, itinerários, trajetórias; ou ainda, de ilusão romanesca: descrição em -grafia, -logia, -nomia, embora faça parte deste corpus sobremaneira, as figuras de contestação da cultura: “legitimidade e relativismo cultural”. Toda a discussão acerca da contribuição de uma nova pesquisa ou de uma nova Escola de Pensamento impõe essas questões - para falar a verdade, sem jamais aceitar colocá-las simplesmente, literalmente, o que seria esquecer as “jogadas pessoais ou disciplinares”, pois para Foucault:
Antítese: “o silêncio, ou melhor, a prudência com que as teorias unitárias cercam a genealogia dos saberes seria talvez uma razão para continuar. Poderíamos multiplicar os fragmentos genealógicos. Mas seria otimista, tratando-se de uma batalha dos saberes contra os efeitos de poder do discurso científico - tomar o silêncio do adversário como a prova de que lhe metemos medo. O silêncio do adversário - este é um princípio metodológico, um princípio tático que se deve sempre ter em mente - talvez seja também o sinal de que nós de modo algum lhe metemos medo. Em todo caso, deveríamos agir como se não lhe metêssemos medo. Trata-se, portanto não de dar um fundamento teórico contínuo e sólido a todas as genealogias dispersas, nem de impor uma espécie de coroamento teórico que as unificaria, mas de precisar ou evidenciar o problema que está em jogo nesta oposição, nesta luta, nesta insurreição dos saberes contra a instituição e os efeitos de poder e de saber do discurso científico” (cf. Foucault, 1971; 1973; 1979; 1984:173-74, grifos meus).  
De outra parte, o anti-establishment serve para designar um indivíduo, grupo ou ideia que se coloca contra as instituições oficiais, sejam elas políticas, econômicas ou sociais, da forma vigente da sociedade contemporânea. O prof. Andrew Oitke, catedrático de Antropologia Social em Harvard, publicou em 2001 o seu polêmico livro “Mental Obesity”, que aparentemente revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral. Nessa obra introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna: “a nossa sociedade está mais sobrecarregada de preconceitos do que de proteínas; e mais intoxicada de lugares-comuns do que de hidratos de carbono”. A analogia é perfeita para refletirmos criticamente sobre a universidade brasileira destes dias.
Síntese: As pessoas se viciaram em estereótipos, em juízos apressados, em ensinamentos tacanhos e em condenações precipitadas. Lembra-nos a vaga ideia de generalistas, pois “todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada”. Assim, “os ‘cozinheiros’ desta magna ´fast food` intelectual são os jornalistas, os articulistas, os editorialistas, os romancistas, os falsos filósofos, os autores de telenovelas e mais uma infinidade de outros chamados ‘profissionais da informação’”, pois, “os telejornais e telenovelas estão se transformando nos hamburgers do espírito. As revistas de variedades e os livros de venda fácil são os ´donuts` da imaginação. Os filmes se transformaram na pizza da sensatez”. Daí a analogia no presente artigo: “O problema central está na família e na escola”.

                                      Disponível em: http://tudo-em-cima.blogspot.com/2009/08/rir-e-o-melhor-remedio-festival-de.html
Embora o sufixo “cracia” sugira um sistema de governo, há um sentido mais amplo. Em organizações, pode ser uma forma de recompensa por esforços e reconhecimento, geralmente associado à escolha de posições ou atribuição de funções. Entretanto a palavra “meritocracia” é agora frequentemente usada para descrever um tipo de sociedade onde riqueza, renda, e classe social são designadas por competição, assumindo-se que os vencedores, de fato, merecem tais vantagens em função de seus méritos. Consequentemente, a palavra adquiriu uma conotação de “darwinismo social”, e é usada para descrever sociedades agressivamente competitivas, com grandes diferenças de renda e riqueza, contrastadas com sociedades ditas “igualitárias”.
Em uma democracia representativa, onde o poder está, teoricamente, nas mãos dos representantes eleitos, elementos meritocráticos incluem o uso de consultorias especializadas para ajudar na formulação de políticas, e um serviço civil, meritocrático, para implementá-los. O problema perene na defesa da meritocracia é definir, exatamente, o que cada um entende por “mérito”. Além disso, um sistema que se diga meritocrático e não o seja na prática será um mero discurso para mascarar privilégios e justificar indicações a cargos públicos.
Na música “Vai passar” de Chico Buarque e Francis Hime, vejamos essas “tenebrosas transações”:
“Vai passar/Nessa avenida um samba popular/ Cada paralelepípedo/ Da velha cidade/ Essa noite vai/ Se arrepiar/Ao lembrar/Que aqui passaram sambas imortais/Que aqui sangraram pelos nossos pés/Que aqui sambaram nossos ancestrais/Num tempo/Página infeliz da nossa história/Passagem desbotada na memória/Das nossas novas gerações/ Dormia/A nossa pátria mãe tão distraída/Sem perceber que era subtraída/Em tenebrosas transações/Seus filhos/Erravam cegos pelo continente/Levavam pedras feito penitentes/ Erguendo estranhas catedrais/E um dia, afinal/Tinham direito a uma alegria fugaz/Uma ofegante epidemia/Que se chamava carnaval/O carnaval, o carnaval/(Vai passar)/Palmas pra ala dos barões famintos/O bloco dos napoleões retintos/E os pigmeus do bulevar/ Meu Deus, vem olhar/Vem ver de perto uma cidade a cantar/A evolução da liberdade/ Até o dia clarear/Ai, que vida boa, olerê/Ai, que vida boa, olará/O estandarte do sanatório geral vai passar/Ai, que vida boa, olerê/Ai, que vida boa, olará/O estandarte do sanatório geral/Vai passar”.
                            
Cf. artigo: “O jeitinho brasileiro precisa ter fim antes que o Brasil acabe primeiro”. Disponível em: http://www.pergunteaourso.com.br/14.12.2011. Foto da Av. Amaral Peixoto, Niterói, Rio de Janeiro.
Um dos maiores escritores de todos os tempos, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839. Poeta, romancista, novelista, contista, cronista, dramaturgo, ensaísta e crítico, fundou a Academia Brasileira de Letras e foi seu primeiro presidente. Não se sabe ao certo, se frequentou escolas formalmente. Antes de ser jornalista e cronista, “foi caixeiro de livraria, tipografia e revisor”. Em 1855, publicou a poesia “A palmeira”, no jornal Marmota Fluminense, artesanalmente editado numa livraria que havia se transformado em ponto de encontro de escritores da época. Entre suas obras mais conhecidas estão os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), onde,
“o verdadeiro tema é a nossa mortalidade, o que não constitui assunto para descaso e gracejo, pois o tema enseja uma perspectiva, ao mesmo tempo, distanciada e hilária. O gênio da ironia propiciou-nos poucos exemplos à altura do escritor afro-brasileiro (…), a meu ver, o maior literato negro surgido até o presente” (Bloom, 2003: 687).
Machado de Assis como letrado percebeu um mundo em “agonia”, sendo “uma voz inquietante que fala baixo, mas provoca sempre”. No conto Teoria do Medalhão,  propugna uma análise do comportamento de alguns membros da sociedade. Descreve-os de maneira extremamente clara, precisa, com um humor recatado, ironizando-os usando como background uma conversa aparentemente inocente como a de um pai com um filho. Ora, a tese freudiana de que “se os pais soubessem educar os filhos, os filhos não precisariam de pais” ao que parece se repete. Esse conto, um dos mais deliciosos libelos do escritor contra a mediocridade intelectual e política, é satírico por excelência, lembrando a ironia filosófica dos relatos curtos de Voltaire.
Praticamente sem ação, seu núcleo temático gira em torno de uma exposição de ideias cínicas, através do diálogo entre pai & filho. Teoria do Medalhão desenvolve com muita ironia as mesmas questões levantadas pelo conto O Espelho. O narrador cede seu espaço à reprodução das falas das duas únicas personagens: pai & filho. O tom terrivelmente irônico da fala do pai revela, obviamente, “a denúncia feita pelo Autor por trás do conto em relação a uma sociedade burguesa medíocre e arrogante, que prega o sucesso a qualquer preço, mesmo à custa do empobrecimento da vida interior e das relações sociais e políticas”. A atualidade é medonha se for analisado o discurso paternalista de Tasso Jereissati (PSDB-CE) no e para o Senado brasileiro, ou mesmo o discurso bonachão do governador Cid Gomes (PSB-CE) enumerando obras “faraônicas” de seu governo como se fosse um Petrus Ramus.
A Teoria do medalhão é um dos contos que mostra Machado de Assis como um crítico afiado da sociedade brasileira no que ela tem de mais profundo: a mediocridade condecorada, a troca de favores como motor básico das relações sociais, a hipocrisia, tudo aquilo que perduraria para além da troca de regime. O conto é uma lição a todo homem que almeja ter prestígio, ser reconhecido pela sociedade e que elimina qualquer expressão da subjetividade em nome da absorção ao senso comum, “uma reflexão sem juízo”, na definição hermenêutica de Hans-Georg Gadamer, à opinião da maioria, no sentido político do termo. Os “papéis sociais” para fazermos referência a Talcott Parsons (1949), que diz respeito à codificação do conhecimento concreto existente e a facilitação da seleção de problemas e do controle das distorções de observação e interpretação, fomentadas pela departamentalização da educação e investigação (pesquisa) nas Ciências Sociais.
No conto machadiano, pertencem, num primeiro momento, a um grupo restrito: pai & filho. As personagens não possuem nomes e são, portanto, caracterizadas somente pela posição que ocupam no grupo familiar. Num segundo momento, no decorrer da narrativa, há a construção de um terceiro papel social, este pertencente a um grupo mais amplo: o Medalhão. Daí a atualidade sempre marcante de Machado de Assis na sociedade brasileira, quando precipita como um balão de ensaio na estufa, a mediocridade condecorada na velha política destes nossos dias intramuros na universidade.
Para Lívia Barbosa (1999; 2000; 2001), a meritocracia e a avaliação do desempenho sempre foram questões polêmicas para a administração especificamente no Brasil. Até porque,
“não existe aqui uma ideologia meritocrática fortemente estabelecida na sociedade, mas sim sistemas e discursos meritocráticos. Entre nós existe, do ponto de vista do sistema cultural, a ideia de que cobrar resultados e ainda por cima mensurá-los, é uma atitude profundamente autoritária. Avaliar serviço, público então, é muito mais complicado. Existe nas representações coletivas brasileiras uma relação grande entre competição, cobrança de resultados e desempenho como procedimentos e processos autoritários, e não como processos funcionais ou de hierarquizar pessoas no interior de um todo para fins específicos. Além disso, existe uma identificação entre processos democráticos com meritocráticos. Nem todos os processos democráticos são meritocráticos e nem todos os processos meritocráticos podem e/ou devem ser democráticos”.
No Brasil as pessoas se veem diminuídas na sua dignidade quando são cobradas e/ou avaliadas. Uma das consequências disto é que a responsabilidade pelos resultados de cada um é sempre neutralizada ou desculpada a partir do contexto em que cada um de nós atuou. O objetivo é minorar pela justificação de desempenho, qualquer mácula ao sentimento de dignidade pessoal. Consequentemente muito pouca responsabilidade individual é atribuída a cada um de nós, do ponto de vista institucional. A sociedade brasileira, culturalmente, rejeita a avaliação. Ela é vista como algo negativo, como uma ruptura de um universo amigável, homogêneo e saudável, no qual a competição, vista como um mecanismo social profundamente negativo encontra-se ausente. Tendo em vista que,
 “na universidade não há premiação para o bom professor em nenhum aspecto, mas aqueles que fazem pesquisa, orientam alunos, fazem porque querem fazer, não porque a universidade lhes gratifica em nada disto. A cooperação é vista como algo positivo, mas como é esta cooperação? Ela é positiva desde o momento que quem quer fazer faça, e se eu não quiser fazer não faço, mas entre no bolo da divisão dos resultados. Nada no Brasil pode implicar em cobrança e em hierarquia, porque estes são fatores associados com autoritarismo, por isto é muito difícil administrar do ponto de vista público. Eu acho o Brasil um fenômeno em termos de administração pública, pois com toda essa estrutura lógica de organização do universo do trabalho, de como deve ser uma gestão pública, do que significa o público versus o privado, as coisas andam em muitas áreas de forma eficiente, baseado principalmente na disposição das pessoas e não do sistema e/ou das instituições para se fazer. Eficiência, eficácia, competição, resultados são categorias e discursos que se aplicam à empresa privada e não à esfera pública”.
No sentido contemporâneo a primeira universidade brasileira foi criada no Rio de Janeiro, em 1920, pelo então presidente da República, Epitácio Pessoa. Fundou-a para perpetuar, dentro da nova entidade, “os usos e costumes dos cursos isolados que viriam a lhe dar origem”. Porque, na verdade, o governo juntou “vários cacos”, na expressão de Leonardo Boff, melhor dizendo, institutos isolados, numa soma mecânica e não integrativa, e sobre todo o conjunto colocou uma Reitoria, como órgão de comando. A universidade poderia ser pública (federal, estadual ou municipal) ou livre (particular), deveria incluir três dos seguintes cursos Direito, Medicina, Engenharia, Educação, Ciências e Letras que seriam ligadas, por meio de uma reitoria, por vínculos administrativos, mantendo a autonomia jurídica. - “Lei da equivalência”, equiparou os cursos médios técnicos aos acadêmicos, possibilitando aos alunos, os mesmos direitos de prestarem vestibular para qualquer curso universitário, um privilégio, que antes, era exclusivo dos portadores de diplomas dos cursos médios acadêmicos. - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira - LDB (1961) reforçou o modelo tradicional de instituições de ensino superior vigente no país.
Um processo da chamada “modernização sistêmica”, contudo, só tem lugar no início da década dos anos 1990, quando, então, os empresários e o governo brasileiros voltam sua atenção para a educação, em todos seus níveis. Em sua historicidade a universidade passou por quatro momentos: até 1950, a universidade era praticamente inexistente ou incipiente, na próxima década, cresceu em todos os sentidos: número de instituições, de alunos, de professores, mas durante os anos 1970, a universidade assumiu o papel de instituição de pesquisa, principalmente as universidades públicas, professores passaram a ter carreira acadêmica, pós-graduação, salários melhores que no período anterior, foram construídos prédios, surgiram laboratórios e bibliotecas.
De 1980 em diante iniciou-se o processo de degradação nas universidades brasileiras: cursos reduzidos, energia dos professores canalizada para obter recursos e evitar as perdas salariais, através de greves ininterruptas, que nem sempre levaram ao resultado desejado com a implantação do PCCV - Plano de Cargos, Carreira e Valorização. O princípio ético-político é que a universidade deve estar comprometida com a qualidade de ensino e de formação intelectual de seus alunos, com a produção científica, artística, estética, filosófica e de base tecnológica e com o atendimento às necessidades, aos anseios e às expectativas da sociedade global, em sua “complexidade humana”, de acordo com E. Morin, formando profissionais “policompetentes”, desenvolvendo soluções para problemas locais, regionais e nacionais.


Bibliografia geral consultada:
WEBER, Max, The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism. New York: Charles Scribner’s Sons, 1958, Idem, Essais sur la theorie de la science. Paris: Librarie Plon, 1965; Idem, El politico y el científico. Madrid: Alianza, 1967; Idem, Ensaios de Sociologia (Org. por Hans Gerth & Charles Wrigth Mills). Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982; Idem, Economia y Sociedad. Esbozo de sociología comprensiva. México: Fondo de Cultura Económica, 1992; SILVEIRA, Daniel Barile, “Max Weber e Hans Kelsen: a sociologia e dogmática jurídicas”. In: Rev. Sociol. Polit. no. 27, Curitiba, nov. 2006; AGUIAR, Pinto de, Abertura dos Portos no Brasil (Cairu e os ingleses). Salvador: Progresso, 1960; YOUNG, Michael, The rise of the meritocracy, 1870-2033: An essay on education and inequality. London: Thames & Hudson, 1958, 180 páginas; ASSIS, Machado de, Obras Completas. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1959, 3 volumes; Idem, Contos; seleção de Deomira Stefani, texto integral. 6ª edição. São Paulo: Ática, 1977; Idem, Crônicas Escolhidas. São Paulo: Ática, 1994; Idem, Memórias Póstumas de Brás Cubas. 22ª edição. São Paulo: Ática, 1997; FOUCAULT, Michel, Arqueologia do Saber. Petrópolis (RJ): Vozes, 1971; Idem, El Orden del Discurso. Barcelona: Tusquets, 1973; Idem, A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 1979; Idem, “Genealogia e Poder”. In: Microfísica do Poder. 4ª edição. Rio de Janeiro: Graal, 1984; BLOOM, Harold, Gênio - Os 100 autores mais criativos da história da literatura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003; BOSI, Alfredo, Machado de Assis: o enigma do olhar. 4ª edição. São Paulo: VMF/Martins Fontes, 2007; PARSONS, Talcott, The structure of social action. 2ª edição. Glencoe: The Free Press, 1949; DAMATTA, Roberto, Ensaios de Antropologia Estrutural. Petrópolis (RJ): Vozes, 1973; Idem, Carnavais, Malandros e Heróis. Rio de Janeiro: Guanabara, 1990; Idem, “Roberto Cardoso de Oliveira”. In: Diário do Nordeste, Fortaleza, Ce, 26 de julho de 2006; BARBOSA, Livia, O Jeitinho Brasileiro e a Arte de ser Mais Legal que os Outros. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1992; Idem, Igualdade e Meritocracia. A ética do desempenho nas sociedades modernas. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1999; Idem, O Brasil não é para Principiantes. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 2000; Idem, GRAZIELA, Laura e DRUMMOND, Luiz Augusto, Cultura e Empresas. Coleção Passo-a-Passo. Rio de Janeiro: Editor Jorge Zahar, 2002, entre outros.