quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Em nome da rosa dublado + bônus






segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Massacre do Carandiru: História & Memória do Pavilhão 9

.Ubiracy de Souza Braga*

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* Sociólogo (UFF), cientista político (URFJ), doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará.


“Não foi uma simples invasão, eles entraram atirando e matando”.  Ex-detento Marco Antônio de Moura

            Escólio:O caso do Massacre do Carandiru ficou conhecido “como o maior massacre do sistema penitenciário brasileiro”.Por envolver um grande número de réus e de vítimas, o julgamento do Massacre do Carandiru foi desmembrado em quatro etapas, de acordo com o que ocorreu em cada um dos quatro andares do Pavilhão 9 da Casa de Detenção. Na primeira etapa, em abril, 23 policiais militares foram condenados pela morte de 13 detentos, ocorrida no segundo pavimento.Carandiru é um bairro da zona norte da cidade de São Paulo. Recebeu este nome, pois o córrego Carandiru banhava a histórica Fazenda de Sant`Ana“que originou a maioria dos bairros da zona nordeste paulistana”. Parte do bairro situa-se no distrito de Vila Guilherme e parte no distrito de Santana. O Carandiru é nacionalmente conhecido por ter abrigado a Casa de Detenção de São Paulo, conhecida popularmente como o “Carandiru”, atual Parque da Juventude. Em 2 de outubro de 1992 uma briga entre presos da Casa de Detenção de São Paulo - o Carandiru - deu início a um tumulto no Pavilhão 9, que culminou com a invasão da Polícia Militar e o fuzilamento de 111 detentosnuma operação de “crime de guerra”.

O Complexo Penitenciário do Carandiru, que se notabilizou recentemente por sua superlotação, má administração e pelos massacres violentos que ali ocorreram, foi - por ocasião de sua inauguração - considerado um presídio-modelo, tendo sido projetado para atender às novas exigências do Código Penal republicano de 1890, de acordo com as melhores recomendações do Direito Positivo.O projeto do presídio que venceu a licitação foi inspirado no Centre Pénitentiaire deFresnes, na França, no modelo dito “espinha de peixe” que ainda existe - em funcionamento até hoje - nos arredores de Paris e recebeu o título de “LaboraviFidenter”. Foi elaborado pelo engenheiro-arquiteto Giordano Petry, tendo, no decorrer de sua execução, sofrido algumas adequações feitas por Ramos de Azevedo, razão pela qual esse último costuma ser citado, incorretamente, como sendo seu autor.

A construção dos dois pavilhões originais do presídio ficou a cargo do Escritório Técnico Ramos de Azevedo e foi executada segundo as mais modernas técnicas existentes na época, utilizando os melhores materiais, a maioria deles importados.Por duas décadas, de 1920 a 1940 ano em que atingiu sua capacidade projetada máxima de 1 200 detentos, o presídio, então chamado “Instituto de Regeneração”, foi considerado um padrão de excelência nas Américas, atraindo a visita de inúmeros políticos, estudantes de direito, autoridades jurídicas italianas e até mesmo personalidades como o laureado antropólogo Claude Lévi-Strauss, que vinham a São Paulo para visitá-la, nascido em Bruxelas, a 28 de novembro de 1908 e falecido emParis, 30 de outubro de 2009, foi um antropólogo, professor e filósofo francês. É considerado fundador da antropologia estruturalista, em meados da década de 1950, e um dos grandes intelectuais do século XX.
Professor honorário do Collège de France, ali ocupou a cátedra de Antropologia Social de 1959 a 1982. Foi também membro da Academia Francesa - o primeiro a atingir os 100 anos de idade.Desde seus primeiros trabalhos sobre os povos indígenas do Brasil, que estudou em campo, no período de 1935 a 1939, e a publicação de sua tese: As Estruturas Elementares do Parentesco, em 1949, publicou uma extensa obra, reconhecida internacionalmente.Dedicou uma tetralogia, as “Mitológicas”, ao estudo dos mitos, mas publicou também obras que, felizmente, escapam do enquadramento estrito dos estudos acadêmicos - dentre as quais o famoso:Tristes Trópicos, publicado em 1955, que o tornou conhecido e apreciado por um vasto círculo de leitores.
Em 1936 Stefan Zweig,amigo de Sigmund Freud, escreveu em seu livro:“Encontros com homens, livros e países” que “a limpeza e a higiene exemplares faziam com que o presídio se transformasse em uma fábrica de trabalho”. Eram os presos que do ponto de vista da divisão técnica do trabalho “faziam o pão, preparavam os medicamentos, prestavam os serviços na clínica e no hospital, plantavam legumes, lavavam a roupa, faziam pinturas e desenhos e tinham aulas”. Além disso,a penitenciária do Carandiru era aberta à visitação pública e chegou a ser considerada “um dos cartões postais da cidade de São Paulo”.É somente a partir de 1940 - quando a penitenciária excedeu sua lotação máxima - que ela começa a passar por sucessivas crises e brigas que a levam a um processo social de degradação humana.
Numa das várias tentativas de resolver esses problemas de superlotação foi construída a Casa de Detenção, concluída em 1956 no governo de Jânio Quadros, que elevou sua capacidade para 3 250 detentos, mas que - ao mesmo tempo - era um anexo cuja arquitetura não se adequava totalmente ao projeto original do complexo, embora fosse adequado aos padrões da época.Desde então a história social do Carandiru passa a não ser nada mais que crises e rebeliões, que culminam com os famosos massacres de 1992, quando então, as autoridades penitenciárias amontoavam, em péssimas condições, cerca de 8 mil detentos.Um dos fatos sociais mais conhecidos da história do presídio ocorreu em 1992, quando 111 detentos foram mortos pela Polícia Militar de São Paulo durante uma rebelião, os quais resistiram às investidas policiais. Esse fato teve grande repercussão nacional e internacional. A canção: “Diário de um detento”, do grupo de rap Racionais MC`s, versa a respeito da vida dos detentos e sobre tudo sobre o que ficou conhecido como “o massacre do Carandiru”. Segundo muitos presos, o número oficial está abaixo da realidade, já que se afirma que pelo menos 250 detentos foram mortos na invasão. Vejamos a letra do rap: “Diário de um detento”, do grupo musical “Racionais MC`s:
“São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8h da manhã./Aqui estou, mais um dia./Sob o olhar sanguinário do vigia./Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de uma HK./Metralhadora alemã ou de Israel./Estraçalha ladrão que nem papel./Na muralha, em pé, mais um cidadão José./Servindo o Estado, um PM bom./Passa fome, metido a Charles Bronson./Ele sabe o que eu desejo./Sabe o que eu penso./O dia tá chuvoso. O clima tá tenso./Vários tentaram fugir, eu também quero./Mas de um a cem, a minha chance é zero./Será que Deus ouviu minha oração?/Será que o juiz aceitou a apelação?/Mando um recado lá pro meu irmão:/Se tiver usando droga, tá ruim na minha mão./Ele ainda tá com aquela mina./Pode crer, moleque é gente fina./Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá.../Tanto faz, os dias são iguais./Acendo um cigarro, e vejo o dia passar./Mato o tempo pra ele não me matar./Homem é homem, mulher é mulher./Estuprador é diferente, né?/Toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés, e sangra até morrer na rua 10./Cada detento uma mãe, uma crença./Cada crime uma sentença./Cada sentença um motivo, uma história de lágrima,/sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio,/sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo./Misture bem essa química./Pronto: eis um novo detento/Lamentos no corredor, na cela, no pátio./Ao redor do campo, em todos os cantos./Mas eu conheço o sistema, meu irmão, hã.../Aqui não tem santo./Rátátátá... preciso evitar que um safado faça minha mãe chorar./Minha palavra de honra me protege/pra viver no país das calças bege./Tic, tac, ainda é 9h40./O relógio da cadeia anda em câmera lenta./Ratatatá, mais um metrô vai passar./Com gente de bem, apressada, católica./Lendo jornal, satisfeita, hipócrita./Com raiva por dentro, a caminho do Centro./Olhando pra cá, curiosos, é lógico./Não, não é não, não é o zoológico/Minha vida não tem tanto valor/quanto seu celular, seu computador./Hoje, tá difícil, não saiu o sol./Hoje não tem visita, não tem futebol./Alguns companheiros têm a mente mais fraca./Não suportam o tédio, arruma quiaca./Graças a Deus e à Virgem Maria/.Faltam só um ano, três meses e uns dias./Tem uma cela lá em cima fechada./Desde terça-feira ninguém abre pra nada./Só o cheiro de morte e Pinho Sol./Um preso se enforcou com o lençol./Qual que foi? Quem sabe? Não conta./Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta (...)/Nada deixa um homem mais doente/que o abandono dos parentes./Aí moleque, me diz: então, cêqué o quê?/A vaga tá lá esperando você./Pega todos seus artigos importados./Seu currículo no crime e limpa o rabo./A vida bandida é sem futuro./Sua cara fica branca desse lado do muro./Já ouviu falar de Lucífer?/Que veio do Inferno com moral./Um dia... no Carandiru, não... ele é só mais um./Comendo rango azedo com pneumonia.../Aqui tem mano de Osasco, do Jardim D`Abril, Parelheiros,/Mogi, Jardim Brasil, Bela Vista, Jardim Angela,/Heliópolis, Itapevi, Paraisópolis./Ladrão sangue bom tem moral na quebrada./Mas pro Estado é só um número, mais nada./Nove pavilhões, sete mil homens./Que custam trezentos reais por mês, cada./Na última visita, o neguinho veio aí./Trouxe umas frutas, Marlboro, Free.../Ligou que um pilantra lá da área voltou./Com Kadett vermelho, placa de Salvador./Pagando de gatão, ele xinga, ele abusa/com uma nove milímetros embaixo da blusa./Brown: ´Aí neguinho, vem cá, e os manos onde é que tá?/Lembra desse cururu que tentou me matar?`/Blue: ´Aquele puta ganso, pilantra corno manso./Ficava muito doido e deixava a mina só./A mina era virgem e ainda era menor./Agora faz chupeta em troca de pó!`/Brown: ´Esses papos me incomoda./Se eu tô na rua é foda...`/Blue: ´É, o mundo roda, ele pode vir pra cá`./Brown: ´Não, já, já, meu processo tá aí./Eu quero mudar, eu quero sair./Se eu trombo esse fulano, não tem pá, não tem pum./E eu vou ter que assinar um cento e vinte e um`./Amanheceu com sol, dois de outubro./Tudo funcionando, limpeza, jumbo./De madrugada eu senti um calafrio./Não era do vento, não era do frio./Acertos de conta tem quase todo dia./Tem outra logo mais, eu sabia./Lealdade é o que todo preso tenta./Conseguir a paz, de forma violenta./Se um salafrário sacanear alguém,/leva ponto na cara igual Frankestein/Fumaça na janela, tem fogo na cela./Fudeu, foi além, se pã!, tem refém./Na maioria, se deixou envolver/por uns cinco ou seis que não têm nada a perder./Dois ladrões considerados passaram a discutir./Mas não imaginavam o que estaria por vir./Traficantes, homicidas, estelionatários./Uma maioria de moleque primário./Era a brecha que o sistema queria./Avise o IML, chegou o grande dia./Depende do sim ou não de um só homem./Que prefere ser neutro pelo telefone./Ratatatá, caviar e champanhe./Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe!/Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo.../quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio!/O ser humano é descartável no Brasil./Como Modess usado ou Bombril./Cadeia? Claro que o sistema não quis./Esconde o que a novela não diz./Ratatatá! Sangue jorra como água./Do ouvido, da boca e nariz./O Senhor é meu pastor.../perdoe o que seu filho fez./Morreu de bruços no salmo 23,sem padre, sem repórter./sem arma, sem socorro./Vai pegar HIV na boca do cachorro./Cadáveres no poço, no pátio interno./Adolf Hitler sorri no inferno!/O Robocop do governo é frio, não sente pena./Só ódio e ri como a hiena./ Ratatatá, Fleury e sua gangue vão nadar numa piscina de sangue./Mas quem vai acreditar no meu depoimento?/Dia 3 de outubro, diário de um detento”.
O comandante da operação, coronel Ubiratan Guimarães, enfrentou um júri popular em 2001 e foi condenado a seis séculos de prisão, mas recorreu e teve a absolvição concedida em 2006, “por ter agido no exercício de seu dever”. A ação policial teve o julgamento agendado pela Justiça de São Paulo para 28 de janeiro de 2013 e entre os réus estão 28 dos mais de 100 policiais acusados.Em 2000 foi criado o grupo 509-E no interior do presídio. O grupo gravou dois álbuns dentro do presídio, obtendo uma vendagem alta de cópias para o mercado brasileiro de rap.Colchões queimados, fotos arrancadas de revistas eróticas, restos da última refeição. O cenário se completa com sonhos irrealizados e poemas escritos na parede do Pavilhão 9, onde morreram 111 presos em outubro de 1992.Vinte anos após o episódio, que ficou conhecidomundialmente como “massacre do Carandiru”, nenhuma autoridade fora condenada.
O julgamento terminou com a condenação de 23 policiais militares pela morte de 13 presos, em 1992. Duas décadas depois, as versões de políticos, advogados, ativistas e membros do Judiciário “permanecem em rota de colisão”. O Carandiru gerou livros, filmes e músicas, mas, após 20 anos já é possível explicar o que deu errado naquele dia.Ipso facto,durante o período de desativação do Carandiru, o governo do Estado “promoveu um concurso público para escolha do projeto arquitetônico para o Centro Cultural e o parque”. O grupo vencedor foi o escritório do arquiteto Gian Carlo Gasperini, o qual responsabilizou o escritório da arquiteta-paisagista Rosa GrenaKliass com o desenvolvimento da proposta paisagística para todo o local. Do projeto de Kliass, surgiu a ideia de dividir o projeto em três fases de implantação, cada uma caracterizada por um perfil distinto.

            Foto: Prédio do “Parque da Juventude”, erigido sobre a memória do Carandiru.
            A memória (cf. Le Goff, 1969; 1988; 1990; 1976) não é só a retenção de certo conhecimento, mas também ativadora da imaginação, interpretação, problematização, reinvenção etc., nos quais atuam sobre o que é recordado pelo indivíduo livremente. A memória representa a capacidade do ser humano em conservar e relembrar mentalmente conhecimentos, conceitos, vivências, fatos, sensações e pensamentos experimentados em tempo anterior. A memória refere-se à retenção de habilidades adquiridas ou de informação e em situações cotidianas, os adultos, especialmente os idosos, podem ter algumas dificuldades de recuperação de memória.Não se trata aqui do conceito freudiano de “posterioridade”, em alemão: Nachträglichkeit ou aprés-coup. Segundo Freud, há a possibilidade de transformação do passado ao se dar um novo significado às recordações. Ao questionar os conceitos de “verdade” e de “memória”, Jacques Derrida entendia que Freud propunha um problema filosófico de magnitude inédita, mas que não trataremos agora.
Mesmo sendo consequência do envelhecimento, a diminuição da eficiência da memória é também influenciada por questões como genética, fatores ambientais, vivências, hábitos linguísticos, caráter e personalidade e, claro, em última análise do ponto de vista da ideologia dominante em uma sociedade. Em seu livro L`avenir dure longtemps, o filósofo marxista Louis Althusser refletiu sobre o fato, pretendendo reivindicar uma espécie de “responsabilidade por seus atos” quando do assassinato de sua mulher, HélèneRytmann, uma revolucionária de origem judaico-lituana, oito anos mais velha, o que gerou um puzzle entre seus correligionários e detratores, sobre tal responsabilidade “ser filosófica ou real”. Althusser não foi preso, mas foi internado no Hospital Psiquiátrico Sainte-Anne, onde permaneceu até 1983. Após esta data, ele se mudou para o norte de Paris, onde viveu de forma reclusa, vendo poucas pessoas e não mais trabalhando, a não ser em sua autobiografia. Louis Althusser morreu de ataque cardíaco em 22 de outubro de 1990, aos 72 anos. A perda da memória estaria relacionada com a degeneração dos neurônios cerebrais. E que, conforme o indivíduo fosse envelhecendo, haveria uma perda evolutiva dessas células nervosas, afetando assim a capacidade de memorização.
Vale lembrar que na manhã de 7 de abril de 2011, o ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira, de 24 anos, invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira no bairro de Realengo, na cidade do Rio de Janeiro,e atirou indiscriminadamente, contra crianças e adolescentes que se encontravam em salas de aula, matando dez meninas e dois meninos e ferindo outras vinte crianças. As crianças e os adolescentes que fugiram enquanto o assassino recarregava suas armas encontraram o sargento da polícia militar Márcio Alexandre Alves, que fazia fiscalização de trânsito perto da escola. O sargento, ao chegar à escola ao som de tiros, encontrou o criminoso saindo da sala onde baleara fatalmente oito crianças, e efetuou dois disparos de arma longa, um dos quais atingiu o assassino no abdômen. Ao cair, na escada que leva ao andar superior da escola, Wellington disparou contra a própria cabeça, concretizando o suicídio. O evento causou comoção nacional e repercutiu rapidamente em noticiários internacionais.
            Do ponto de vista igualmente da representação da “tragédia”, do grego antigo τραγδία, composto de τράγος “bode” e δή “canto”,é uma forma de drama, que se caracteriza pela sua seriedade e dignidade, frequentemente envolvendo um conflito individual ou coletivo entre uma personagem e algum poder de instância maior, como a lei, os deuses, o destino ou a sociedade. Suas origens são obscuras, mas é certamente derivada da rica poética e tradição religiosa da Grécia Antiga. Suas raízes podem ser rastreadas mais especificamente nos ditirambos, os cantos e dança em honra ao deus grego Dionísio, para lembramos de Friedrich Nietzsche, conhecido entre os romanos como Baco. Dizia-se que estas apresentações etilizadas e extáticas foram criadas pelos sátiros, seres meio bodes que cercavam Dionísio em suas orgias, e as palavras gregas τράγος, tragos, (bode) e δή, odé, (canto) foram combinadas na palavra tragoidia (algo como “canções dos bodes”), da qual a palavra “tragédia” é derivada.
            Do ponto de vista da análise teórica “assassínio em massa” ou “assassinato em massa”, também chamado de “massacre”, é o ato de assassinar, simultaneamente ou em curto período de tempo, um grande número de pessoas. Pode ser cometido por indivíduos ou organizações. Esse termo também pode ser aplicado aos “assassinos em série” (cf. Braga, 2006; 2011; Braga, 2012a; 2012b), que levam muitas vítimas à morte, mas não necessariamente ao mesmo tempo.Os maiores assassínios em massa da história têm se confundido com o genocídio, baseados frequentemente em conceitos étnicos ou religiosos. O termo genocídio acabou se generalizando, mesmo que o massacre não tenha se dirigido a grupos em particular (o que o caracterizaria).Fora de algum contexto político, o termo “assassínio em massa” se refere ao ato de matar grande número de pessoas ao mesmo tempo. Os exemplos incluiriam disparar uma arma de fogo contra uma multidão, ou incendiar um local com grande concentração de pessoas.A maior parte dos que cometem assassínios em massa se situam em três categorias: a) aniquiladores de famílias; b) indivíduos com problemas mentais, onde casos nos EUA são exemplares; c) trabalhadores contrariados.
            A morte injusta de um grande número de civis e prisioneiros de guerra também é chamada:“crime de guerra” e inclusive pode ser denominado genocídio se estiver presente a motivação étnica assim como aconteceu com a desagregação da Iugoslávia, durante a colonização dos norte-americanos e a morte de milhares ou possivelmente milhões de hindus e islâmicos pelas forças armadas do Paquistão em 1971. Outro exemplo horroroso é o assassinato de mais de 4000 seres humanos sob as ordens de Augusto Pinochet Ugarte no Chile nas décadas de 1970 e 1980 e começo da década de 1990, todos impunes. Vale ressaltar também o “Massacre de MyLai”, durante a Guerra do Vietnã onde soldados norte-americanos massacraram, em 1968, civis, dentre, em sua maioria, crianças, mulheres e nem animais foram poupados. Em 1965, os Estados Unidos enviaram tropas para sustentar o governo do Vietnã do Sul, que se mostrava incapaz de debelar o movimento insurgente de nacionalistas e comunistas, que se haviam juntado na Frente Nacional para a Libertação do Vietname (FNL). Entretanto, apesar de seu imenso poder militar e econômico, os norte-americanos falharam em seus objetivos, sendo obrigados a se retirarem do país em 1973 e dois anos depois o Vietnã foi reunificado sob o governo socialista, tornando-se oficialmente, em 1976, a República Socialista do Vietnã. Os mandantes do massacre receberam apoio do então presidente Richard Nixon e apenas um foi condenado e teve sua pena abrandada. Foi um dos maiores massacres em guerras na história.
            Existem vários significados atribuídos à palavra “Carandiru”, de origem tupi-guarani. Combinação de “carandá + “iru”, alguns pesquisadores da historiografia defendem a tese de que ela poderia significar “abelha da carnaúba”. Outros dizem que seria “um recipiente feito de carandá” (carnaúba). Há quem diga que através dos anos mediante o processo social e político de degradação humana seu significado passou a ser “onde os ratos são dilacerados” ou, então, do ponto de vista da cultura “prisão indígena similar à senzala dos negros”. Em 1967, a pesquisadora Maria da Penha investigou a história social do bairro de Santana e constatou que, no local onde se situava o sistema prisional Carandiru, existiu “uma fazenda com resíduos preservados de uma senzala”. Enfim, seja qual for a etimologia da palavra, todas elas de uma forma ou de outra se referem à violência concreta de um sistema falido operacionalmente, sendo que o cinema já se incumbiu de modificá-la, vendendo para o mundo inteiro Carandiru “como sinônimo de inferno”, mas deveriam acrescentar:lembra Dante Alighieri (1265-1321), escritor, poeta e político italiano. É considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana, definido como “ilsommo poeta”, quando afirma: “vencer a crueldade que em prisão me exila do redil onde, cordeiro, dormi, oposto aos lobos que o atacam” (“vinca lacrudeltàchefuor mi serra delbelloovileov`io dormi' agnello, nimico ai lupiche li danno guerra”).
            Mal pondo os pés na Itália, o imperador Henrique VII recebeu uma carta, curta, mas bajulatória, datada de 18 de abril de 1311. Nela o autor, um poeta esplêndido, depois de chamá-lo de sucessor de César e de Augusto e, em versos, comentar que “o verdadeiro limite do seu império era o oceano e o limite da sua fama as estrelas”, tomava a liberdade de censurar o monarca na sua demora em pôr sítio a Florença. A missiva era de Dante Alighieri que, quase sempre, se assinava como “florentino injustamente desterrado”, que se encontrava banido da sua cidade natal desde 1302. Seu partido, o partido branco, havia sido expulso pelo partido rival, dos negros, o partido guelfo, favorável ao poder papel e hostil ao do imperador. Desgostoso com o longo exílio imposto que, como disse no célebre verso do Paraíso: “Tu proverai si come sadisalelo pane altrui, e come è duro calleloscendere e I'salir per altruiscale” (XVIII, 58), isto é: “onde se prova como é salgado o pão alheio e como é duro o caminho de subir e descer pelas escadas dos outros”, Dante apressava o imperador. Que deixasse de lado o cerco às pequenas cidades rebeladas da Lombardia e se lançasse logo sobre aquela que, às ocultas, fomentava insubordinação – “a víbora que morde as entranhas da própria mãe” – “a perversa e ímpia Mirra” - a cidade de Florença. Dante e os guelfos brancos, “gibelinos” escondidos, como se chamavam os seguidores do poder imperial, eram uns reacionários empedernidos, representava, segundo Carducci, “ilpopolovecchio”, ruínas sócio humanas do velho patriciado dos tempos antigos que ainda sobreviviam espalhados pela Itália como se Roma não tivesse sucumbido. Como consequência não aceitava a hegemonia do Papa sobre as cidades italianas, afirmando que as intromissões da Cúria no universo da política não passavam de puras usurpações.
            Depois de 46 anos de existência, quase metade deles sob a promessa de desativação, o maior símbolo do fracasso do sistema prisional brasileiro finalmente começa a desaparecer. Três pavilhões da Casa de Detenção, no complexo do Carandiru, zona norte de São Paulo, vem abaixo para virar entulho às 11h do dia 08 de agosto de 2012.A história de mortes, rebeliões, fugas e do chamado massacre do Carandiru, ocorrido em 1992, aparentemente começa a mudar, segundo o governo do Estado, com o uso de 250 quilos de explosivos (foto). Construído em 1956, pelo então prefeito Jânio Quadros (cf. Braga, 2012), a Casa de Detenção “virou um modelo obsoleto e caro”. Nas últimas contabilidades, “quando a população ainda ultrapassava 7.000 presos, as instalações velhas geravam um custo só de água e energia elétrica de R$ 18 milhões ao ano”.Segundo a Secretaria Estadual da Administração Penitenciária, nunca se fez o cálculo do custo do preso da Casa de Detenção em relação aos outros presídios. Porém, segundo a secretaria, “era bem maior que a média atual de R$ 660 mensais gastos por preso em regime fechado”.
            

            Etnograficamente na plateia montada para assistir a implosão de hoje, ao lado do palanque para as autoridades, está reservado um espaço para quem diz ter até saudade da rotina do que foi o maior presídio da América Latina. Entre eles, funcionários que trabalharam décadas e até mesmo nasceram dentro da Casa de Detenção. José Francisco dos Santos, 58, mais conhecido como Chiquinho da Detenção, passou os últimos 22 anos no complexo, trabalhando no setor administrativo. Ele presenciou -e foi refém- de inúmeras rebeliões e participou de episódios que ele mesmo divide entre “felizes”, “tristes” e “engraçados”. Entre as histórias engraçadas, Santos conta que, uma vez, um dos presos que teve o maior número de entradas e saídas do presídio -foram 18 no total- chegou a implorar, de joelhos, para que não o tirassem de dentro da Casa de Detenção. – “Olha, em todos esses anos, vimos de tudo. Vou sentir falta, mas acho que estava mesmo na hora de acabar”, afirma Chiquinho, que trabalhou “no arquivamento das fichas dos presos”.   
                        

                                   Foto: representação do “Carandiru” de Hector Babenco.
            Há dez anos, a casa de Detenção de São Paulo, popularmente conhecida como Carandiru, derrubava grande parte de seus pavilhões e encerrava a história de um dos presídios mais polêmicos da América Latina. Para estimular a reflexão sobre o impacto do acontecimento na capital paulista, o SESC Santana promove nos dias 13 e 27, duas sessões cinematográficas com títulos que mergulham na complexidade do presídio pela programação do evento “Vestígios do Carandiru”. Melhor dizendo: “Impressões da Memória” é tema de mostra no SESC Vila Mariana. Além da mostra, a programação da unidade também contará com exposição, oficinas e workshops de fotografia, intervenções artísticas entre outras iniciativas que discutem o tema.Baseado no livro “Estação Carandiru”, de Drauzio Varella, o longa-metragem narra a história de um médico (Luiz Carlos Vasconcelos), que se oferece para realizar um trabalho de prevenção a AIDS no maior presídio da América Latina, o Carandiru. Lá ele convive com a realidade atrás das grades, que inclui violência, superlotação das celas e instalações precárias. Porém, apesar de todos os problemas sociais, o médico logo percebe que os prisioneiros não são figuras demoníacas, existindo dentro da prisão “solidariedade orgânica”, para lembramos de Emile Durhheim, organização e uma grande vontade de viver.
Os laços que o agente Paulo Sérgio de Almeida Braga, 44, mantém com o complexo são familiares. Seus avós trabalhavam no local como agentes. Seu pai e sua mãe se conheceram -e se casaram- dentro do presídio.E ele, como os outros irmãos, nasceu no local e, seguindo a vocação da família, também prestou concurso para agente penitenciário aos 19 anos. Mas só foi trabalhar no Carandiru em 1999. – “Meu pai levava a gente para cortar o cabelo, almoçar com os detentos, os ver jogarem bola. Uma vez, até sentei do lado da Luz Vermelha, e minha mãe trabalhou com o Chico Picadinho”, afirma, relacionando nomes de bandidos famosos. Álvaro Alberto Moreira, 53, e agente penitenciário desde 1977, conta que sentirá saudade principalmente das festas de final de ano, tempo em que a cadeia ficava normal, “como os próprios detentos definiam”.O espetáculo que tanto saudosos quanto críticos da Casa de Detençãoassistiram durou apenas 7 segundos, de acordo com Manoel Dias, engenheiro responsável pela implosão.
O isolamento do local começou às 7h, quando o trânsito nas avenidas Cruzeiro do Sul, general Pedro Leon Schneider e general Ataliba Leonel e na Rua Antônio dos Santos Neto fora interrompido. O tráfego só fora liberado às 13horas. Os trens foram parados nas estações Santana e Tietê dez minutos antes da implosão. Segundo a Defesa Civil, 131 moradores foram retirados de suas casas durante a implosão. – “Não podemos garantir 100%. Mas houve muito planejamento e todos os cuidados foram tomados”, afirmou Dias. IranildeJulioti dos Santos, 27, recebeu a carta da Defesa Civil notificando da retirada na sexta-feira da semana passada. “Ela teme que os túneis cavados pelos presos provoquem problemas na estrutura de sua casa no momento da implosão”.Mesmo os moradores que não terão de deixar suas casas estão com medo de que a operação danifique os imóveis. – “Aqui embaixo deve estar tudo esburacado. Não vou ficar em casa não”, disse Adriana Nascimento da Silva, 23. O engenheiro disse que não devem ocorrer problemas. Mesmo assim, sismógrafos foram colocados para medir a intensidade da implosão e verificar possíveis danos nas proximidades.
Em cima das camas vazias das celas, cartas recebidas e outras jamais enviadas foram abandonadas. Abertas, jogadas por todos os lados, todas trazem relatos de dor, desespero e amor pelos familiares distantes. Letras de música baseadas na vida atrás das grades ou na realidade de quem vive rodeado pelo crime. Trecho 1 – “Minha condição é sinistra, não posso dar rolé(sic). Não posso dar bobeira na pista. Na vida que eu levo eu não posso brincar, eu carrego uma 9 e uma HK”, diz um dos papéis jogados no chão, citando a letra de “Soldado do Morro” do rapper MV Bill, que mora na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro.Trecho 2 – “Meu amor, espero que esta te encontre bem de saúde e em paz com Deus. Por aqui as coisas não estão fáceis”. Assim começa uma das cartas jogadas ao chão. Na sequência, a mulher do detento fala de uma mulher da família, que saiu de casa para ir ao médico e não voltou mais. – “Da dó do João, que é muito pequeno ainda. A vó faz comida para ele...”. Comenta também, no vocabulário dos presos, sobre dinheiro. – “Quando a gente levou a jumbada para você, não compramos cigarros, porque não tinha dinheiro”. 
Na gíria da prisão, a “jumbada” se refere às entregas de comida e produtos de higiene que as famílias costumam levar em sacolas para os presos. Depois, pede cuidado ao marido, que estava devendo dinheiro a outro preso. – “Você está devendo aí. Vê se não se mete em encrenca”. Trecho 3 - Ao desejar saúde e paz a um conhecido preso, uma mulher completa: - “Sei que é difícil desejar isso para uma pessoa que se encontra desse lado”. Também fala sobre o futuro e de planos para uma vida nova fora das grades. – “Quero que termine seus estudos e consiga um trabalho legal, onde conheça pessoas legais também. Sei que pra você isso pode parecer um sonho, mas sei que quando a gente corre atrás dos nossos objetivos, uma hora a gente consegue”. Trecho 4 - Alguns enviam conselhos sobre como aguentar a vida na prisão. – “Sobre a sua cadeia, fica irmão. Logo mais você está na rua”, escreve um tio em regime semiaberto a um sobrinho ainda preso. Manda lembranças a outros companheiros da prisão e termina: - “Para todos do sofrimento, mais uma vez fica com Deus”. - Ex-detento: Durante a visita ao presídio, a reportagem encontrou J.S., 33, que ficou preso durante 17 anos, 5 deles no Pavilhão 9, condenado por assalto a mão armada. Testemunha do massacre de 1992, ele descreveu algumas das cenas que presenciou durante a rebelião. – “Todo mundo que morava neste quarto morreu”, disse, apontando o cômodo vizinho ao que ele mesmo ocupava, junto com mais sete presos. – “São coisas que eu nunca vou esquecer”.Os nomes citados na reportagem foram “trocados” para preservar a privacidade dos envolvidos, como se houvesse neutralidade no jornalismo brasileiro e de resto no mundo ocidental!Bibliografia geral consultada:

Filme: “Carandiru” (Brasil, 2003, 148′, dir.: Hector Babenco); TORRES, Maria Cecília Teixeira Mendes, “Bairro de Santana, Prefeitura de São Paulo, Departamento de Cultura, 1970”. In: Meu Cinema Brasileiro: Carandiru. Acesso em 13/07/2009; Artigo: “Carandiru tem fim com implosão hoje às 11h”. Disponível no site: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/; Artigo: “Cartas de presos e familiares mostram dor dentro e fora do Carandiru”. Disponível no site: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/; Artigo: “Massacre do Carandiru, que deixou 111 mortos, completa 10 anos”. Disponível no site http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/; Artigo: “Vestígios do Carandiru relembra 10 anos da implosão do presídio”. Disponível no site: http://catracalivre.com.br/sp/; Artigo: “Massacre do Carandiru, após 20 anos”. Disponível no site: http://www.terra.com.br/noticias/infograficos/carandiru/; Artigo: “Veja frases do júri que condenou 23 PMs pelo massacre do Carandiru”. Disponível no site: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/04/; RODRIGUES, Nina, As Coletividades Anormais.  Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1939;LE GOFF, Jacques, La CivilizacióndelOccidente Medieval. 1ª edición. Barcelona: Editorial Juventud, 1969; Idem, Por amor às cidades: conversações com Jean Lebrun.  2ª edição. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1988; Idem, História e Memória. 2ª edição. São Paulo: UNICAMP, 1990; Idem & NORA, Pierre, História – Novas Abordagens. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976; BRAGA, Ubiracy de Souza, “Rebeliões da Cidade”. In: Jornal O Povo. Fortaleza, 27 de maio de 2006; Idem, “Jânio Quadros renunciou há 50 anos. História & Memória”. Disponível em: http://espacoacademico.wordpress.com/2011/08/27/; Idem, “Terrorismo de Estado”. In: http://alaninet.org; Idem, “Massacre de Eldorado dos Carajás: 15 anos de impunidade”. : http://espacoacademico.wordpress.com/2011/04/30/; Idem, “Serial Killers brasileiros: origem e significado da tragoidia”. In: http://espacoacademico. com/2011/04/13/; Idem, “Os AIE revividos. O presentperfect de Louis Althusser”. In: http://www.oreconcavo.com.br/2012/01/05/; FOUCAULT, Michel, Eu Pierre Rivière, que matei minha mãe, minha irmã e meu irmão. Rio de Janeiro: Graal, 1983;MARTINS, José de Souza, “Marx na nova encíclica do Papa”. In: Jornal O Estado de São Paulo, 22 de janeiro de 2008; entre outros. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Instituto Agropolos abre cadastro de reserva para 170 técnicos

Dominguinhos, um sanfoneiro singular - do baião ao jazz

Ubiracy de Souza Braga*

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* Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará.


“Eu, com 9 anos, conheci um moço sem saber que era Luiz Gonzaga, no Hotel Tavares Gouveia”. Dominguinhos  
         

Escólio: José Domingos de Morais nasceu em Garanhuns, no dia 12 de fevereiro de 1941 e faleceu em São Paulo, em 23 de julho de 2013. Conhecido como Dominguinhos, foi um instrumentista, cantor e compositor brasileiro. Exímio sanfoneiro teve como mestres nomes como Luiz Gonzaga e Orlando Silveira. Na região Nordeste do Brasil, o acordeão é popularmente denominado sanfona, embora este termo designe originalmente um instrumento musical de cordas muito tensas, similar à rabeca.Em sua formação musical, Dominguinhosrecebeu influências do baião, bossa nova, choro, forró, xote e jazz.Em 1950, aos nove anos de idade, conheceu Luiz Gonzaga quando tocava na porta do hotel em que este estava hospedado. Luiz Gonzaga se impressionou com a desenvoltura do menino e o convidou a ir ao Rio de Janeiro.A sua integração à equipe de músicos de Luís Gonzaga fez com que ganhasse reputação como músico e arranjador e ele aproximou-se de músicos do movimento bossa nova. Fez trabalhos junto a inúmeros músicos de renome, como Gilberto Gil, Maria Bethânia, Elba Ramalho e Toquinho, e eventualmente acabou por consolidar uma carreira musical própria, englobando gêneros musicais diversos como bossa nova, jazz e pop.
            Desnecessário dizer que a “Bossa Nova” é considerada um subgênero musical, antropologicamente falando, derivado do samba e com forte influência do jazz estadunidense, surgido no final da década de 1950 no Rio de Janeiro. De início, o termo era apenas relativo a um novo “modo de cantar” e “tocar samba” naquela época, ou seja, a uma reformulação “estética dentro do moderno samba carioca urbano”. Com o passar dos anos, a Bossa Nova tornar-se-ia um dos movimentos mais influentes da história cultural da música popular brasileira, conhecido em todo o mundo e, especialmente, associado a João Gilberto, Nara Leão, Vinicius de Moraes, Antônio Carlos Jobim, Baden Powell e Luiz Bonfá e outros.A palavra “bossa” apareceu pela primeira vez na década de 1930, em “Coisas Novas”, samba do popular cantor Noel Rosa: O samba, a prontidão/e outras bossas,/são nossas coisas (...). A expressão bossa nova passou a ser utilizado também na década seguinte para aqueles “sambas de breque”, baseado no talento de improvisar paradas súbitas durante a música para encaixar falas.
Alguns críticos musicais destacam certa influência que a cultura norte-americana do Pós-Guerra, de músicos como Stan Kenton, combinada ao impressionismo erudito, de Debussy e Ravel, teve na bossa nova, especialmente do cool jazz e bebop. Embora tenha pouca influência de música estrangeira como o Jazz, a Bossa Nova possui elementos de samba sincopado. Além disso, havia um fundamental inconformismo com o formato musical de época. Os cantores Dick Farney e Lúcio Alves, que fizeram sucesso nos anos da década de 1950 com um jeito suave e minimalista (em oposição a cantores de grande potência sonora) também são considerados influências positivas sobre os garotos que fizeram a Bossa Nova. Um embrião do movimento, já na década de 1950, eram as reuniões casuais, frutos de encontros de um grupo de músicos da classe média carioca em apartamentos da zona sul, como o de Nara Leão, na Avenida Atlântica, em Copacabana. Nestes encontros, cada vez mais frequentes, a partir de 1957, um grupo se reunia para fazer e ouvir música. Dentre os participantes estavam novos compositores da música brasileira, como Billy Blanco, Carlos Lyra, Roberto Menescal e Sérgio Ricardo, entre outros. O grupo foi aumentando, abraçando também Chico Feitosa, João Gilberto, Luiz Carlos Vinhas, Ronaldo Bôscoli, entre outros.
Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu numa sexta-feira no dia 13 de dezembro de 1912, numa casa de barro batido na Fazenda Caiçara, povoado do Araripe, a 12 km de Exu (extremo oeste do estado de Pernambuco, a 610 km do Recife, a 69 km de Crato e a 80 km de Juazeiro do Norte, (Ceará), segundo filho de Ana Batista de Jesus (‘Mãe Santana’) e oitavo de Januário José dos Santos. O padre José Fernandes de Medeiros o batizou na matriz de Exu em 5 de janeiro de 1913. Deveria ter o mesmo nome do pai, mas na madrugada em que nasceu seu pai foi para o terreiro da casa, viu uma estrela cadente e mudou de ideia. Era o dia de São Luís Gonzaga no mês do Natal, o que explica a adoção do sobrenome Nascimento. O lugar natal é no sopé da Serra do Araripe, e inspiraria uma de suas primeiras composições, “Pé de Serra”. Seu pai trabalhava na roça, num latifúndio, e nas horas vagas tocava acordeão; também consertava o instrumento. Foi na década de 1940 que o baião tornou-se popular, através dos músicos Luiz Gonzaga (conhecido como o “rei do baião”) e Humberto Teixeira (“o doutor do baião”). O baião utiliza muito os seguintes instrumentos musicais: viola caipira, sanfona, triângulo, flauta doce e acordeom. Os sons destes instrumentos são intercalados ao canto. A temática do baião é o cotidiano dos nordestinos e as dificuldades da vida. O baião recebeu, na sua origem, influências das modas de viola, música caipira e também de danças indígenas.


                        Reportagem do Diário de Pernambuco (1957).
Foi com ele que Luiz aprendeu a tocá-lo. Não era adolescente ainda quando passou a se apresentar em bailes, forrós e feiras, de início acompanhando seu pai. Autêntico representante da cultura nordestina manteve-se fiel às suas origens mesmo seguindo carreira musical no sudeste do Brasil. O gênero musical que o consagrou foi o baião. A canção emblemática de sua carreira foi “Asa Branca”, composta em 1947 em parceria com o advogado cearense Humberto Teixeira. Antes dos dezoito anos Luiz teve sua primeira paixão: Nazarena, uma moça da região. Foi rejeitado pelo pai dela, o coronel Raimundo Deolindo, que não o queria para genro e ameaçou-o de morte. Mesmo assim Luiz e Nazarena namoraram algum tempo escondidos e planejavam o futuro. Januário e Santana lhe deram uma surra ao descobrirem que ele se envolveu com a moça. Revoltado por não poder casar-se com a moça, e por não querer morrer nas mãos do pai dela, Luiz Gonzaga fugiu de casa e ingressou no exército no Crato (Ceará). Durante nove anos viajou por vários estados brasileiros, como soldado, sem dar notícias à família. Não teve mais nenhuma namorada.

            Dominguinhos interessou-se por música desde cedo, começando a aprender sanfona com seis anos de idade, quando ganhou um pequeno acordeão de oito baixos e chegou a se apresentar em feiras livres e portas de hotéis em troca de algum dinheiro junto com seus dois irmãos, com quem formava o trio Os Três Pingüins.Oriundo de família humilde, seu pai, mestre Chicão, era um conhecido sanfoneiro e afinador de sanfonas. Disciplinado, praticava o instrumento por horas a fio, e logo se tornou proficiente nas sanfonas de 48, 80 e 120 baixos, e acabou “por tornar-se músico profissional ainda garoto”. Em 1950, aos nove anos de idade, conheceu Luiz Gonzaga quando tocava na porta do hotel em que este estava hospedado. Luiz Gonzaga (foto) se impressionou com a desenvoltura do menino e o convidou a ir ao Rio de Janeiro. Foi no dia 13 de dezembro de 1956, durante a comemoração do aniversário do Rei do Baião.Dominguinhos o fez em 1954, então com treze anos de idade, acompanhado do pai e dos dois irmãos, indo morar no município de Nilópolis, no estado do Rio de Janeiro, berço doGrêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor, Baixada Fluminense. Por vezes é chamada informalmente de Beija-Flor de Nilópolis, numa referência à sua cidade de origem, porém esta denominação não é oficial.          Dominguinhos tinha apenas 16 anos quando Luiz Gonzaga o apresentou como seu herdeiro musical.

                                   
Ao encontrar-se com Luiz Gonzaga no Rio (foto), este lhe deu de presente uma sanfona e o integrou à sua equipe de músicos, e Dominguinhos passou a fazer shows pelo Brasil e participar de gravações. Em uma dessas viagens, em 1967, conhece a cantora de forró Anastácia, nome artístico de Lucinete Ferreira, com quem se casa e forma uma parceria artística que duraria onze anos. Dominguinhos já tinha um filho, Mauro, nascido em 1960 de seu primeiro casamento. Em 1976, Dominguinhos conhece a também cantora Guadalupe Mendonça, seu terceiro casamento, do qual nasceria uma filha, Liv. Separaram-se, mas mesmo após a separação, os dois mantiveram a amizade até a morte do cantor. A sua integração à equipe de músicos de Luís Gonzaga fez com que ganhasse reputação como músico e arranjador e ele aproximou-se de músicos do movimento bossa nova(cf. Braga, 2012). Fez trabalhos junto a inúmeros músicos de renome, como Gilberto Gil, Maria Bethânia, Elba Ramalho e Toquinho, e eventualmente acabou por consolidar uma carreira musical própria, englobando gêneros musicais diversos como bossa nova, jazz e pop.
Em primeiro lugar do ponto de vista técnico-metodológico, o acordeão, também chamado sanfona e gaita, é um instrumento musical aerofone de origem alemã, composto por um fole, um diapasão e duas caixas harmónicas de madeira. “Acordeão” e a corruptela acordeom vêm do alemão akkordium, pelo francês accordéon. Já “Sanfona” vem do grego symphonía, pelo latim symphonia e pelo latim vulgar sumphonia. Na história social da música o cheng é “o precursor do harmônio e do acordeão, pois foi o primeiro a ser idealizado e construído na família dos instrumentos de palheta”. De acordo com a região que era usada, o cheng recebia nomes diferentes: “schonofouye”, “hounofouye”, “tcheng”, “cheng”, “khen”, “tamkim”, “yu”, “tchao” e “ho”. De acordo com o padre jesuíta Amiot, o cheng foi levado da China para São Petersburgo, na Rússia, onde Kratzenstein, na verdade ChristienTheophile, doutor em filosofia, em medicina e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Copenhague, nascido em Wernigerode, na Prússia, em 1723, examinou o instrumento e verificou “que o seu agente sonoro era uma lâmina de metal que vibrava por meio do sopro, produzindo sons graves e agudos”.
Em seguida ele sugeriu que Kirschnik aplicasse, nos tubos dos órgãos de sua fabricação, esta lâmina livre de metal, o que foi feito em 1780. Da Rússia, passou para a Europa, tendo a Alemanha tomado grande interesse, sobretudo nos instrumentos de órgão. Foi daí que ChristienFriederich Ludwig Buschmann, fabricante de instrumentos, teve a ideia de reunir várias lâminas afinadas e fixadas numa placa formando uma escala cujos sons se faziam ouvir passando rapidamente através do sopro, isto em 1822. Mais tarde, ele transformou esta pequena placa num instrumento musical para brinquedo de criança, tocado com as duas mãos, ao qual deu o nome de “handaolina” ou “harmônica de mão”. Para tanto, aumentou o número de palhetas de metal e o tamanho do aparelho, anexando- lhe um pequeno fole e uma série de botões. Este instrumento, depois, segundo a história, foi aperfeiçoado por Koechel e, 7 anos mais tarde, o austríaco Cirilo Demian construiu, em Viena, um instrumento rudimentar de palheta livre, teclado e fole, ao qual, em virtude de ter 4 botões na parte da mão esquerda que, ao serem tocados com os dedos afundados, “permitiam a obtenção do acorde, deu o nome de acordeão, nome que ficou definitivamente ligado ao instrumento através de inúmeros aperfeiçoamentos”.

Historicamente o sistema de palheta livre já havia sido aperfeiçoado por Grenié em 1810, na França, sendo rico em sonoridade e dando origem ao órgão. O francês Pinsonat empregou o mesmo sistema no alamiré ou diapasão tubular que veio a chamar-se “tipófono” ou “tipótono” e do qual se originou a gaita de boca, cuja invenção se deve a Eschenbach. A gaita de boca é um conjunto de palhetas metálicas como linguetas, dispostas cada uma em seu caixilho e vibradas pelo ar soprado pela boca. Na França, o acordeão foi aperfeiçoado em 1837 por C. Buffet. Segundo todos os tratados sobre o assunto, o acordeão nada mais é do que o aperfeiçoamento de diversos instrumentos do mesmo gênero, como o “oeline de Eschenbach”, o “aerophone de Christian Dietz”, “a physarmónica de Hackel” etc., tomando, desde esta data, sua forma definitiva, seu desenvolvimento concreto mais rico e seus variados registros para mudança de intensidade e timbre do som.
Mais tarde, com a escala cromática, o acordeão pôde produzir qualquer melodia ou harmonia e inúmeros fabricantes o aperfeiçoaram colocando registros, tanto na mão direita com na esquerda, para maior variedade de sons. Contudo, vale lembrar que é na Itália que se fabricam os melhores acordeões, tendo sido os primeiros construídos em 1863 em Castelfidardo, em Ancona, surgindo depois Paolo Soprani e Stradella-Dellapé. Nos Estados Unidos, há diversas fábricas, sendo a marca Excelsior a mais famosa. Na Alemanha, foi construído o primeiro acordeão em 1822, em Berlim. Vem desse país a marca Hohner.No Brasil, também tiveram grande destaque os acordeões Todeschini, da cidade de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. Mesmo com uma interrupção na fabricação de mais de 30 anos, os acordeões desta marca continuam tendo preferência nacional por ter um som inconfundível. Ao longo de sua história, a Todeschini produziu mais de 170 000 acordeões. A qualidade dos produtos era tão grande que a Todeschini passou a fabricar acordeões para a marca Hohner. Estes eram exportados para os Estados Unidos.
Ainda no Brasil, uma família importante na história do Acordeon são os Bertussi. Através da sua música de grande qualidade, os Irmãos Bertussi (Adelar e Honeide), eram consultados para dar suas opiniões na confecção dos Acordeons Todeschini. É possível conhecer esta história através do memorial localizado no Rio Grande do Sul, onde se encontra aberto à visitação pública, anexo tem a casa histórica da família Bertussi. Os “Irmãos Bertussi” marcaram a época na música Brasileira a partir de 1955, porém a saga desta família Italiana atravessa todo o século XX na música do Rio Grande do Sul, iniciando-se com a chegada de João Bertussi Filho (pai de FioravanteBertussi) na leva de imigrantes XIX. Estabelecidos na região serrana, “Os Bertussi” difundiram instrumentos musicais (especialmente a gaita) através de seu entreposto comercial. Criaram uma escola musical baseada na técnica apurada e na leitura musical.
Talvez a cultura gaúcha nem possa dimensionar ainda a influência e real importância dos “Bertussi”, mas, eles representam diretamente a ascendência Italiana na sociedade gaúcha do século XX e todos os seus significados. “Os Bertussi” infundem uma escola musical de baile, com música apropriada para a dança e a alegria característica do povo Italiano.Somando a isso, ainda há que se frisar o aspecto importante do espírito inovador destes músicos.A primeira grande revolução que causaram foi a de utilizar dois acordeons ao invés da costumeira dupla violão/acordeom.Isto só foi possível, porque Adelar e Honeide eram exímios instrumentistas e escreviam as partituras rearranjando os temas de modo que os instrumentos se completassem. Era como um só acordeom tocando a quatro mãos. Anos depois, já no início dos anos 1950, Incorporaram a bateria ao baile gaúcho.
Bateria era, então, um instrumento utilizado pelos jazzistas e havia entrado no Rio Grande do Sul a partir de 1924. “Os Bertussi” sabiam o que queriam.Na época não existiam equipamentos de som: microfones, amplificadores e caixas de som são coisas dos anos 1960. Precisavam de volume, de potência sonora para os bailes cada vez maiores. Assim é que “Os Bertussi” estiveram na linha de frente da música ao gravar temas eruditos em acordeom para o mercado nacional e ao revolucionar a execução musical dentro do estado. Esta saga vitoriosa cruza todo o século XX e adentra o século XXI.Adelar e seu irmão foram os pioneiros da música tradicionalista gaúcha, e também foi o primeiro grupo a incluir a bateria em bailes, fato inédito, porque na época os artistas se apresentavam nos bailes com um pandeiro, uma gaita, um violão e um bumbo legüero.Hoje Adelar apresenta-se em shows pelo Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Na véspera de viajar para Exu, a fim de participar das comemorações pelo centenário de Luiz Gonzaga, Dominguinhos foi tomado de uma imensa angústia. Estava debilitado, depois de mais uma sessão de quimioterapia. Estava chorando quando chamou a mulher, a cantora Guadalupe, para conversar. Ela lhe disse que ele podia celebrar Luiz Gonzaga no show que aconteceria no Parque Dona Lindu, não precisava fazer a cansativa viagem ao sertão, de carro, já que Dominguinhos, há anos, não viaja de avião: “Eu disse que ele não podia ir. Ele teimou e foi dois dias antes, como se temesse ficar impossibilitado de ir. Acho que ele sabia que ia ter consequência. Porém criaram muita expectativa em torno dele, como principal herdeiro de Luiz Gonzaga. Ele pagou pra ver, e o preço foi alto”. O comentário é da cantora Guadalupe Mendonça, que convive com Dominguinhos há 37 anos, e com quem teve a também cantora Liv Moraes. Ela e Dominguinhos se casaram, e se separaram, mas amizade continuou. Ela e a filha acompanham o drama do artista muito antes de se tornar público que ele estava acometido de um câncer no pulmão: “Diziam que ele não duraria seis meses, e já se passaram seis meses. A gente, eu e Liv, acompanhava, monitorando de longe. Quando viajava, eles ligavam pelo menos quatro vezes por dia. Mas não tem sido fácil. Passei a tomar antidepressivo”, revela Guadalupe.
Os dois se conheceram no Rio, no final dos anos 1970, mas Guadalupe confessa “que se apaixonou por Dominguinhos a primeira vez que o viu no palco”, num show de Nara Leão: “Eu estava prestes a sair do Brasil, tinha sido contratada por um produtor inglês para dançar no Molin Rouge, em Paris. Mas quando começou o show, uma das músicas foi Folhetim, que não havia ainda sido gravada, comecei a chorar. Comecei a me dizer que não podia sair do Brasil, que precisava daquilo. Quando terminou o show sai correndo feito uma louca para o camarim. Queria falar com. Pedi para me apresentaram o sanfoneiro”. A facilidade de chegar ao camarim, porque ele foi com o tio, o ator Luiz Mendonça, e quem produzia o show era o pernambucano Wellington Lima, na época então casado com Xuruca Pacheco, prima de Guadalupe. A primeira vez que ela viu Dominguinhos foi a Fazenda Nova, ainda adolescente. Ele tinha ido participar do primeiro festival de verão que aconteceu no teatro ao ar livre. Dominguinhos na época tocava com Gal Costa: “Os melhores momentos da minha vida aconteceram em Fazenda Nova. Comecei a fazer a Paixão de Cristo com quatro anos de idade”, conta Guadalupe (foto).

Foi o avô dela, Epaminondas Mendonça, líder político da região, que iniciou, com sua mulher, Sebastiana Mendonça, a Paixão de Cristo, em 1951. O filho dele, Luiz Mendonça, “foi o primeiro Cristo na encenação do drama sacro”. Mesmo com antecedentes na família, o pai de Guadalupe, o deputado Paulo Lucena de Mendonça, proibiu a filha de seguir a carreira artística: - “Sofri violência doméstica. Meu pai me proibia de pensar, de viver”, confessa Guadalupe. Mas não adiantou. No Recife, ela começou a participar de programas no Canal 2 (atual TV Jornal). Quando se tornou impossível continuar cantando, pelas imposições do pai, Guadalupe conta que, com 18 anos, fugiu para São Paulo: - “Conheci Marcio Fasano, quando ele veio ao Recife com a peça:“Computa, computador, computa”, de Millôr Fernandes. Fiquei hospedada na casa dos avós dele em São Paulo. Trabalhei como modelo, participei do musical:“Onde canta o sabiá”, com direção de Tânia Alves”, conta Guadalupe. Tânia Alves participou do grupo “Chegança, de Luiz Mendonça”.
De São Paulo ela foi para o Rio, morar na casa de Luiz Mendonça, ator com carreira estabelecida, e que incentivava a sobrinha: - “Comecei a ganhar dinheiro fazendo fotonovelas, tinha muito naquele tempo, Contigo, Capricho, Sétimo Céu. Minha tia, Diva, mandou uma carta para Daniel Filho, e passei a fazer pontas em novelas da rede Globo. A primeira de que participei foi Dancing days”. E aí veio o show com Dominguinhos e Nara Leão: - “Sai andando pelos corredores do teatro e, de repente, lá vem Dominguinhos caminhando em minha direção. Só nós dois. Ele perguntou se eu tinha gostado do show. Disse que estava apaixonada por ele. Fui para São Paulo, e não parava de pensar em Dominguinhos. Quando voltei para o Rio, encontrei por acaso, diante do Teatro Carlos Gomes, o zabumbeiro que tocava com ele. Mandei um beijo para Dominguinhos”.
O estado de coma do cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano Dominguinhos é irreversível, segundo o filho dele, Mauro da Silva Moraes. Mauro confirmou, nesta sexta-feira, 17/07 que recebeu a informação do médico Paulo Marchiori, do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, no dia 25 de fevereiro. A família vinha mantendo a informação em sigilo, mas o filho resolveu falar. A família diz que retardou a divulgação da notícia para preservar o compositor. – “O médico me disse pessoalmente que o coma é irreversível. Estávamos tentando resguardar, estou respeitando muito meu pai, mas tem uma hora que você não aguenta”, disse Mauro, filho do primeiro casamento do músico. Os dedos de Seu Domingos se movem lentamente. Há meses estavam duros, em nada parecidos com aqueles que a diva do jazz Sara Vaughan beijou depois de vê-los incendiar as teclas de uma sanfona no Free Jazz Festival de 1987.
Nem de longe os mesmos que Luiz Gonzaga nomeou herdeiros legítimos de seu reinado. Ao sentir a mão da mulher Guadalupe (2013) tocar a sua, Dominguinhos a aperta forte. Sua reação mais comovente depois de oito enfartes, 23 minutos sem oxigenação no cérebro, uma traqueostomia, dois meses na UTI e desavenças familiares sobre seu próprio leito até parece milagre.A luta do maior músico da cultura nordestina, um dos mais geniais instrumentistas do País, se dá em um quarto do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Assim que foi diagnosticado com um câncer de pulmão, fez tratamentos de rádio e quimioterapia sem jamais falar sobre a doença com a imprensa. Sua incapacidade de dizer não, mesmo debilitado, o levou, em dezembro de 2012, até Exu, no interior de Pernambuco, para tocar nos 100 anos de nascimento de Luiz Gonzaga. Uma decisão difícil, tomada depois de uma noite de lágrimas como respostas às súplicas de Guadalupe. – “Eu dizia para ele não ir e ele só chorava. Ele nunca diz não”.
Como não entra em avião “nem sob tortura”, Dominguinhos saiu de carro de Recife para Exu. A cada dois quilômetros, ligava para dizer a Guadalupe como estava. Em uma ligação, reclamou de febre. – “Então volta, homem. Volta pelo amor de Deus”, ela implorou. Domingos foi até o fim e tocou já sentindo o pulmão fechar. Quatro dias depois, passou mal, foi internado e começou a lutar pela vida. Três rapazes chegaram quarta-feira do Recife só para ver Dominguinhos. Era um sonho conhecer o mestre. Guadalupe aceitou levá-los até o quarto. Enquanto Domingos dormia, ela contava sobre o dia em que o “trouxe de volta”. Guadalupe implorava para que o marido saísse de seu estado de inconsciência. – “Domingos, acorde. Sei que você está me ouvindo. Venha comigo homem, você consegue. Pegue nas mãos desse homem de branco a seu lado e venha...”. De repente, nas lembranças de Guadalupe, o sanfoneiro levou o tronco para frente e ergueu os braços. Quando tentou falar, percebeu que não podia e, então, sua expressão foi de pânico.
Guadalupe contava esta história quando percebeu que os rapazes não olhavam surpresos mais para ela, mas para Dominguinhos. Seu Domingos, notou a mulher, estava acordado e chorando. – “Ele ouviu o que eu disse e se emocionou”. Ela não chamou os médicos, só confortou o paciente.  - “Não desista, não deixe o que aconteceu hoje abalar você”. Antes dos três fãs chegarem do Recife para beijarem suas mãos, uma cena triste vivida sobre seu leito pela segunda vez deixou Dominguinhos visivelmente triste.Quem passou pelo hospital foi Mauro Moraes, filho do sanfoneiro e de Janete, sua primeira mulher. Mauro, 53 anos, não tem boas relações nem com Guadalupe, a segunda esposa de Domingos, nem com Liv, a filha do casal. Segundo testemunhas, Mauro chegou para visitar o pai quando se desentendeu com Márcio, o acompanhante que Guadalupe contratou para ficar o tempo todo ao lado de Dominguinhos. Mauro pediu para ficar a sós com o pai, mas Márcio se negou a deixar o quarto. Mauro então teria começado uma discussão acalorada com Márcio, pedindo privacidade e dizendo que ninguém teria o direito de fazer aquilo com ele. O clima esquentou e impropérios foram trocados.
Guadalupe não gosta de alimentar discussões, mas diz estar exausta das desavenças provocadas por Mauro. Em março, sites publicaram frases do rapaz dizendo que seu pai estava “em coma irreversível”, informação nunca confirmada pelo hospital. Dias depois, redes sociais multiplicavam o boato de que Dominguinhos havia morrido. – “Você imagina as pessoas me ligando dizendo que meu pai morreu”, conta Liv. “Quando disse que ele estava em coma irreversível, só repeti o que um médico disse para mim”. O Sírio Libanês não dá notícias que vão além de um boletim divulgado em 18 de março: - “Houve melhora do quadro cardiológico, respiratório e renal. Do ponto de vista neurológico, ele apresenta estado minimamente consciente, demonstrando discretos sinais de recuperação. O paciente permanece internado, sem previsão de alta”.  O coração de José Domingos de Moraes, 72 anos, “tem o tamanho do mundo e segue batendo no ritmo de um xote doído e comovente...”.
O cantor e compositor pernambucano Dominguinhos, conhecido como “rei da sanfona”, morreu às 18h, aos 72 anos, em decorrência de complicações infecciosas e cardíacas. Ele estava internado no hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Pouco depois da morte, vários artistas se manifestaram para lamentar a perda do músico.A cantora Ivete Sangalo postou no Instagram uma foto “em que aparece ao lado do sanfoneiro”. Na legenda, escreveu: - “Vá em paz, Dominguinhos. Sentirei saudade do seu sorriso, mas você é maravilhoso e nos deixou a sua música”.  Chico Buarque disse: “Muito triste. Perdi um amigo e um parceiro querido”. Também pelo Instagram, a cantora Roberta Miranda disse: “Minha homenagem ao nosso querido Dominguinhos!! Tive o prazer de homenagear com a música “Forrepeando”. Ele tocou sua linda Sanfona e sorriu muito na frase (mas pra tocar este fole com tanto carinho, tem que ser Dominguinhos ) #triste”.
A cantora Elba Ramalho postou: “Lá se vai, o meu amor, deixando uma grande saudade... Dominguinhos, eterno amor, amizade sincera!!”. Gal Costa postou “uma foto antiga ao lado do sanfoneiro” em sua conta no Instagram com a frase: “Saudades de Dominguinhos. Muita mesmo!”. O cantor Luciano, da dupla Zezé di Camargo e Luciano, postou uma foto com a legenda: “Descanse em paz, meu grande amigo”.Integrante da dupla Cesar Menotti e Fabiano,Cesar Menotti lamentou: “O povo triste e a cultura nacional infinitamente mais pobre. O Sanfoneiro Ouro partiu. #luto”. O apresentador Britto Jr. disse: “Meus sentimentos à família de Dominguinhos. O bailão não tem hora pra terminar lá no céu!”.O cantor Luan Santana escreveu: “Aonde quer que você vá Seja onde for Me leva, Me leva... Seja como for seu mundo Se você me leva eu vou...”. Deus levou um dos maiores nomes da história da nossa música! Descanse em paz Dominguinhos!”. O apresentador Rafael Cortez disse no Twitter: “Triste a morte de Dominguinhos. Mas me contento em saber q ele agora reencontra amigos saudosos no outro lado, onde chega amparado e querido”.
A cantora Preta Gil postou uma foto do cantor no Instagram com a mensagem: “Mestre dos mestres Dominguinhos, descanse em Paz!! #saudade". O cantor Falcão também se manifestou: "#Tristeza Partiu Dominguinhos. Vá com Deus, amigo!”. O cantor China escreveu no Twitter: “agora que o forró no céu vai ficar bom! voa, dominguinhos... voa!”. Paula Lima, cantora, disse: “Dominguinhos: Genialidade, Musicalidade, Serenidade, Elegância e Brasilidade! #DescanseEmPazDominguinhos”.O compositor de axé Tonho Matéria disse no Twitter: Mais um gênio se vai e deixa sua marca na mente do povo nordestino. #Adeus meu caro e amado mestre #Dominguinhos!". A cantora Karina Buhr postou: “DOMINGUINHOS, preciosidade dessa vida!! E das outras vidas...”. O cantorTatau da banda Araketu disse: - “Uma grande perda para a música brasileira! Descanse em paz Dominguinhos... “Sempre terá o meu respeito e admiração”. Entre os prêmios recentes que recebeu por sua obra, em 2002, foi vencedor do Grammy Latino com o disco “Chegando de Mansinho”. Em 2007, ganhou o prêmio TIM na categoria Melhor Cantor Regional pelo álbum: “Conterrâneos” (2006) e no ano de 2010 foi homenageado no Prêmio Shell de Música Brasileira, recebendo a premiação pelo conjunto da obra. Bibliografia geral consultada:
BRAGA, Ubiracy de Souza, “Etta James: At Last. Ensaio de Etnomusicologia”. Disponível no site: http://estudosviquianos.blogspot.com.br/2012/03/; Idem, “Forró: Dança, rebolado, beleza e internacionalização do gênero”. Disponível em: http://httpestudosviquianosblogspotcom.dihitt.com/n/arte-cultura/2012/05/29/; Idem, “Jorge Ben Jor, 70 anos do Poeta da Simpatia”. Disponível no site: http://www.oreconcavo.com.br/2012/05/17; Idem, “Gilberto Gil, fruto de uma geração luminosa”. Disponível em: http://www.oreconcavo.com.br/2012/06/29/; Idem, “Há 50 Anos o Mundo (en) Canta Garota de Ipanema”. Disponível no site: http://estudosviquianos.blogspot.com.br/2012/03/; Idem, “Jorge Mautner: memória do filho do caos”. Disponível em: http://www.oreconcavo.com.br/2013/02/06/; CANTEL, Raymond, Les Prophetiesdanslalitteraturepopulaire du Nordeste. Caravelle. /Toulouse, (15), 1970; GUSDORF, George, La Palabra. Buenos Aires: Ediciones Nueva Visión, 1971; HEGEL, G. W. F., Fenomenologia delloSpirito. Florença: La Nuova Itália, 1973, 2 volumes; Idem, “A Fenomenologia do Espírito” (Excerto). In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980;ENZENSBERGER, Hans Magnus, Palaver - PolitischeÜberlegungen (1967-1973).EditionSuhrkampVerlag Frankfurt amMain 1974;GERBER, Raquel, O Mito da Civilização Atlântica - Glauber Rocha e o cinema Novo, cinema e sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978; Artigo:“Dominguinhos, herdeiro fiel”. Disponível no site: http://www.millarch.org/artigo/; Luiz Gonzaga: Vozes do Brasil. São Paulo: Martin Claret, 1990; Ângelo, Assis, Eu Vou Contar pra Vocês. São Paulo: Ícone, 1990;MORIN, Edgar, La complexitéhumaine. Paris: ÉditionsFlammarion, 1994;AZEVEDO, Antônio Carlos do Amaral, Dicionário de nomes, termos e conceitos históricos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996; Dominique,Vida do Viajante: A saga de Luiz Gonzaga. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 1997; EIZING, Barbara; VELOSO, Caetano, Tropical Truth: A Story of Music and Revolution in Brazil.Nova York: Da Capo Press, 2003; VENTURA, Thiago,MPB completa 20 anos sem Luiz Gonzaga (2009); BECKER, Howard S., Falando da Sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2009; Artigo: “Guadalupe conta sua história com Dominguinhos”. Disponível no site: http://jconline.ne10.uol.com.br//2013/04/01/; Artigo: “Veja e leia reportagem de 1957 em que Luiz Gonzaga apresenta Dominguinhos como seu sucessor”. Disponível em: http://blogs.diariodepernambuco.com.br/play/; Artigo: “Sereno adeus a Dominguinhos, o discípulo maior de Gonzagão”. In: Fortaleza: Diário do Nordeste, 24 de julho de 2013, entre outros.