quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Em nome da rosa dublado + bônus
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Publicado por
Pedro Mourão
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Massacre do Carandiru: História & Memória do Pavilhão 9
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Publicado por
Pedro Mourão
.Ubiracy de Souza Braga*
_____________________
* Sociólogo (UFF), cientista político (URFJ), doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará.
“Não foi uma simples invasão, eles entraram atirando e matando”. Ex-detento Marco Antônio de Moura
Escólio:O
caso do Massacre do Carandiru ficou conhecido “como o maior massacre do sistema
penitenciário brasileiro”.Por envolver um grande número de réus e de vítimas, o
julgamento do Massacre do Carandiru foi desmembrado em quatro etapas, de acordo
com o que ocorreu em cada um dos quatro andares do Pavilhão 9 da Casa de Detenção.
Na primeira etapa, em abril, 23 policiais militares foram condenados pela morte
de 13 detentos, ocorrida no segundo pavimento.Carandiru é um bairro da zona
norte da cidade de São Paulo. Recebeu este nome, pois o córrego Carandiru banhava
a histórica Fazenda de Sant`Ana“que originou a maioria dos bairros da zona
nordeste paulistana”. Parte do bairro situa-se no distrito de Vila Guilherme e
parte no distrito de Santana. O Carandiru é nacionalmente conhecido por ter
abrigado a Casa de Detenção de São Paulo, conhecida popularmente como o “Carandiru”,
atual Parque da Juventude. Em 2 de outubro de 1992 uma briga entre presos da
Casa de Detenção de São Paulo - o Carandiru - deu início a um tumulto no
Pavilhão 9, que culminou com a invasão da Polícia Militar e o fuzilamento de
111 detentosnuma operação de “crime de guerra”.
O
Complexo Penitenciário do Carandiru, que se notabilizou recentemente por sua
superlotação, má administração e pelos massacres violentos que ali ocorreram,
foi - por ocasião de sua inauguração - considerado um presídio-modelo, tendo
sido projetado para atender às novas exigências do Código Penal republicano de
1890, de acordo com as melhores recomendações do Direito Positivo.O projeto do
presídio que venceu a licitação foi inspirado no Centre Pénitentiaire deFresnes, na França, no modelo dito “espinha
de peixe” que ainda existe - em funcionamento até hoje - nos arredores de Paris
e recebeu o título de “LaboraviFidenter”. Foi elaborado pelo
engenheiro-arquiteto Giordano Petry, tendo, no decorrer de sua execução,
sofrido algumas adequações feitas por Ramos de Azevedo, razão pela qual esse
último costuma ser citado, incorretamente, como sendo seu autor.
A
construção dos dois pavilhões originais do presídio ficou a cargo do Escritório
Técnico Ramos de Azevedo e foi executada segundo as mais modernas técnicas
existentes na época, utilizando os melhores materiais, a maioria deles
importados.Por duas décadas, de 1920 a 1940 ano em que atingiu sua capacidade
projetada máxima de 1 200 detentos, o presídio, então chamado “Instituto de
Regeneração”, foi considerado um padrão de excelência nas Américas, atraindo a
visita de inúmeros políticos, estudantes de direito, autoridades jurídicas
italianas e até mesmo personalidades como o laureado antropólogo Claude
Lévi-Strauss, que vinham a São Paulo para visitá-la, nascido em Bruxelas, a 28
de novembro de 1908 e falecido emParis, 30 de outubro de 2009, foi um
antropólogo, professor e filósofo francês. É considerado fundador da
antropologia estruturalista, em meados da década de 1950, e um dos grandes
intelectuais do século XX.
Professor
honorário do Collège de France, ali ocupou a cátedra de Antropologia Social de
1959 a 1982. Foi também membro da Academia Francesa - o primeiro a atingir os
100 anos de idade.Desde seus primeiros trabalhos sobre os povos indígenas do
Brasil, que estudou em campo, no período de 1935 a 1939, e a publicação de sua
tese: As Estruturas Elementares do
Parentesco, em 1949, publicou uma extensa obra, reconhecida internacionalmente.Dedicou
uma tetralogia, as “Mitológicas”, ao estudo dos mitos, mas publicou também
obras que, felizmente, escapam do enquadramento estrito dos estudos acadêmicos
- dentre as quais o famoso:Tristes
Trópicos, publicado em 1955, que o tornou conhecido e apreciado por um
vasto círculo de leitores.
Em
1936 Stefan Zweig,amigo de Sigmund Freud, escreveu em seu livro:“Encontros com
homens, livros e países” que “a limpeza e a higiene exemplares faziam com que o
presídio se transformasse em uma fábrica de trabalho”. Eram os presos que do
ponto de vista da divisão técnica do trabalho “faziam o pão, preparavam os
medicamentos, prestavam os serviços na clínica e no hospital, plantavam
legumes, lavavam a roupa, faziam pinturas e desenhos e tinham aulas”. Além
disso,a penitenciária do Carandiru era aberta à visitação pública e chegou a
ser considerada “um dos cartões postais da cidade de São Paulo”.É somente a
partir de 1940 - quando a penitenciária excedeu sua lotação máxima - que ela
começa a passar por sucessivas crises e brigas que a levam a um processo social
de degradação humana.
Numa
das várias tentativas de resolver esses problemas de superlotação foi
construída a Casa de Detenção, concluída em 1956 no governo de Jânio Quadros,
que elevou sua capacidade para 3 250 detentos, mas que - ao mesmo tempo - era
um anexo cuja arquitetura não se adequava totalmente ao projeto original do
complexo, embora fosse adequado aos padrões da época.Desde então a história social
do Carandiru passa a não ser nada mais que crises e rebeliões, que culminam com
os famosos massacres de 1992, quando então, as autoridades penitenciárias
amontoavam, em péssimas condições, cerca de 8 mil detentos.Um dos fatos sociais
mais conhecidos da história do presídio ocorreu em 1992, quando 111 detentos
foram mortos pela Polícia Militar de São Paulo durante uma rebelião, os quais
resistiram às investidas policiais. Esse fato teve grande repercussão nacional
e internacional. A canção: “Diário de um detento”, do grupo de rap Racionais MC`s, versa a respeito da
vida dos detentos e sobre tudo sobre o que ficou conhecido como “o massacre do
Carandiru”. Segundo muitos presos, o número oficial está abaixo da realidade,
já que se afirma que pelo menos 250 detentos foram mortos na invasão. Vejamos a
letra do rap: “Diário de um
detento”, do grupo musical “Racionais MC`s:
“São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8h da manhã./Aqui estou, mais um
dia./Sob o olhar sanguinário do vigia./Você não sabe como é caminhar com a
cabeça na mira de uma HK./Metralhadora alemã ou de Israel./Estraçalha ladrão
que nem papel./Na muralha, em pé, mais um cidadão José./Servindo o Estado, um
PM bom./Passa fome, metido a Charles Bronson./Ele sabe o que eu desejo./Sabe o
que eu penso./O dia tá chuvoso. O clima tá tenso./Vários tentaram fugir, eu
também quero./Mas de um a cem, a minha chance é zero./Será que Deus ouviu minha
oração?/Será que o juiz aceitou a apelação?/Mando um recado lá pro meu
irmão:/Se tiver usando droga, tá ruim na minha mão./Ele ainda tá com aquela
mina./Pode crer, moleque é gente fina./Tirei um dia a menos ou um dia a mais,
sei lá.../Tanto faz, os dias são iguais./Acendo um cigarro, e vejo o dia
passar./Mato o tempo pra ele não me matar./Homem é homem, mulher é
mulher./Estuprador é diferente, né?/Toma soco toda hora, ajoelha e beija os
pés, e sangra até morrer na rua 10./Cada detento uma mãe, uma crença./Cada
crime uma sentença./Cada sentença um motivo, uma história de lágrima,/sangue,
vidas e glórias, abandono, miséria, ódio,/sofrimento, desprezo, desilusão, ação
do tempo./Misture bem essa química./Pronto: eis um novo detento/Lamentos no
corredor, na cela, no pátio./Ao redor do campo, em todos os cantos./Mas eu
conheço o sistema, meu irmão, hã.../Aqui não tem santo./Rátátátá... preciso
evitar que um safado faça minha mãe chorar./Minha palavra de honra me
protege/pra viver no país das calças bege./Tic, tac, ainda é 9h40./O relógio da
cadeia anda em câmera lenta./Ratatatá, mais um metrô vai passar./Com gente de
bem, apressada, católica./Lendo jornal, satisfeita, hipócrita./Com raiva por
dentro, a caminho do Centro./Olhando pra cá, curiosos, é lógico./Não, não é
não, não é o zoológico/Minha vida não tem tanto valor/quanto seu celular, seu
computador./Hoje, tá difícil, não saiu o sol./Hoje não tem visita, não tem futebol./Alguns
companheiros têm a mente mais fraca./Não suportam o tédio, arruma quiaca./Graças
a Deus e à Virgem Maria/.Faltam só um ano, três meses e uns dias./Tem uma cela
lá em cima fechada./Desde terça-feira ninguém abre pra nada./Só o cheiro de
morte e Pinho Sol./Um preso se enforcou com o lençol./Qual que foi? Quem sabe?
Não conta./Ia tirar mais uns seis de ponta a ponta (...)/Nada deixa um homem
mais doente/que o abandono dos parentes./Aí moleque, me diz: então, cêqué o
quê?/A vaga tá lá esperando você./Pega todos seus artigos importados./Seu
currículo no crime e limpa o rabo./A vida bandida é sem futuro./Sua cara fica
branca desse lado do muro./Já ouviu falar de Lucífer?/Que veio do Inferno com
moral./Um dia... no Carandiru, não... ele é só mais um./Comendo rango azedo com
pneumonia.../Aqui tem mano de Osasco, do Jardim D`Abril, Parelheiros,/Mogi,
Jardim Brasil, Bela Vista, Jardim Angela,/Heliópolis, Itapevi, Paraisópolis./Ladrão
sangue bom tem moral na quebrada./Mas pro Estado é só um número, mais nada./Nove
pavilhões, sete mil homens./Que custam trezentos reais por mês, cada./Na última
visita, o neguinho veio aí./Trouxe umas frutas, Marlboro, Free.../Ligou que um
pilantra lá da área voltou./Com Kadett vermelho, placa de Salvador./Pagando de
gatão, ele xinga, ele abusa/com uma nove milímetros embaixo da blusa./Brown: ´Aí
neguinho, vem cá, e os manos onde é que tá?/Lembra desse cururu que tentou me
matar?`/Blue: ´Aquele puta ganso, pilantra corno manso./Ficava muito doido e
deixava a mina só./A mina era virgem e ainda era menor./Agora faz chupeta em
troca de pó!`/Brown: ´Esses papos me incomoda./Se eu tô na rua é foda...`/Blue:
´É, o mundo roda, ele pode vir pra cá`./Brown: ´Não, já, já, meu processo tá
aí./Eu quero mudar, eu quero sair./Se eu trombo esse fulano, não tem pá, não
tem pum./E eu vou ter que assinar um cento e vinte e um`./Amanheceu com sol,
dois de outubro./Tudo funcionando, limpeza, jumbo./De madrugada eu senti um
calafrio./Não era do vento, não era do frio./Acertos de conta tem quase todo
dia./Tem outra logo mais, eu sabia./Lealdade é o que todo preso tenta./Conseguir
a paz, de forma violenta./Se um salafrário sacanear alguém,/leva ponto na cara
igual Frankestein/Fumaça na janela, tem fogo na cela./Fudeu, foi além, se pã!,
tem refém./Na maioria, se deixou envolver/por uns cinco ou seis que não têm
nada a perder./Dois ladrões considerados passaram a discutir./Mas não
imaginavam o que estaria por vir./Traficantes, homicidas, estelionatários./Uma
maioria de moleque primário./Era a brecha que o sistema queria./Avise o IML,
chegou o grande dia./Depende do sim ou não de um só homem./Que prefere ser
neutro pelo telefone./Ratatatá, caviar e champanhe./Fleury foi almoçar, que se
foda a minha mãe!/Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo.../quem mata mais
ladrão ganha medalha de prêmio!/O ser humano é descartável no Brasil./Como Modess
usado ou Bombril./Cadeia? Claro que o sistema não quis./Esconde o que a novela
não diz./Ratatatá! Sangue jorra como água./Do ouvido, da boca e nariz./O Senhor
é meu pastor.../perdoe o que seu filho fez./Morreu de bruços no salmo 23,sem
padre, sem repórter./sem arma, sem socorro./Vai pegar HIV na boca do cachorro./Cadáveres
no poço, no pátio interno./Adolf Hitler sorri no inferno!/O Robocop do governo
é frio, não sente pena./Só ódio e ri como a hiena./ Ratatatá, Fleury e sua
gangue vão nadar numa piscina de sangue./Mas quem vai acreditar no meu
depoimento?/Dia 3 de outubro, diário de um detento”.
O
comandante da operação, coronel Ubiratan Guimarães, enfrentou um júri popular
em 2001 e foi condenado a seis séculos de prisão, mas recorreu e teve a
absolvição concedida em 2006, “por ter agido no exercício de seu dever”. A ação
policial teve o julgamento agendado pela Justiça de São Paulo para 28 de janeiro
de 2013 e entre os réus estão 28 dos mais de 100 policiais acusados.Em 2000 foi
criado o grupo 509-E no interior do
presídio. O grupo gravou dois álbuns dentro do presídio, obtendo uma vendagem
alta de cópias para o mercado brasileiro de rap.Colchões queimados, fotos arrancadas de revistas eróticas,
restos da última refeição. O cenário se completa com sonhos irrealizados e
poemas escritos na parede do Pavilhão 9, onde morreram 111 presos em outubro de
1992.Vinte anos após o episódio, que ficou conhecidomundialmente como “massacre
do Carandiru”, nenhuma autoridade fora condenada.
O
julgamento terminou com a condenação de 23 policiais militares pela morte de 13
presos, em 1992. Duas décadas depois, as versões de políticos, advogados,
ativistas e membros do Judiciário “permanecem em rota de colisão”. O Carandiru
gerou livros, filmes e músicas, mas, após 20 anos já é possível explicar o que
deu errado naquele dia.Ipso facto,durante
o período de desativação do Carandiru, o governo do Estado “promoveu um
concurso público para escolha do projeto arquitetônico para o Centro Cultural e
o parque”. O grupo vencedor foi o escritório do arquiteto Gian Carlo Gasperini,
o qual responsabilizou o escritório da arquiteta-paisagista Rosa GrenaKliass
com o desenvolvimento da proposta paisagística para todo o local. Do projeto de
Kliass, surgiu a ideia de dividir o projeto em três fases de implantação, cada
uma caracterizada por um perfil distinto.
Foto: Prédio do “Parque da
Juventude”, erigido sobre a memória
do Carandiru.
A memória (cf. Le Goff, 1969; 1988;
1990; 1976) não é só a retenção de certo conhecimento, mas também ativadora da
imaginação, interpretação, problematização, reinvenção etc., nos quais atuam
sobre o que é recordado pelo indivíduo livremente. A memória representa a
capacidade do ser humano em conservar e relembrar mentalmente conhecimentos,
conceitos, vivências, fatos, sensações e pensamentos experimentados em tempo
anterior. A memória refere-se à retenção de habilidades adquiridas ou de
informação e em situações cotidianas, os adultos, especialmente os idosos,
podem ter algumas dificuldades de recuperação de memória.Não se trata aqui do conceito
freudiano de “posterioridade”, em alemão: Nachträglichkeit
ou aprés-coup. Segundo Freud, há a
possibilidade de transformação do passado ao se dar um novo significado às
recordações. Ao questionar os conceitos de “verdade” e de “memória”, Jacques
Derrida entendia que Freud propunha um problema filosófico de magnitude
inédita, mas que não trataremos agora.
Mesmo
sendo consequência do envelhecimento, a diminuição da eficiência da memória é
também influenciada por questões como genética, fatores ambientais, vivências,
hábitos linguísticos, caráter e personalidade e, claro, em última análise do
ponto de vista da ideologia dominante em uma sociedade. Em seu livro L`avenir dure longtemps, o filósofo
marxista Louis Althusser refletiu sobre o fato, pretendendo reivindicar uma
espécie de “responsabilidade por seus atos” quando do assassinato de sua mulher,
HélèneRytmann, uma revolucionária de origem judaico-lituana, oito anos mais
velha, o que gerou um puzzle entre
seus correligionários e detratores, sobre tal responsabilidade “ser filosófica
ou real”. Althusser não foi preso, mas foi internado no Hospital Psiquiátrico
Sainte-Anne, onde permaneceu até 1983. Após esta data, ele se mudou para o
norte de Paris, onde viveu de forma reclusa, vendo poucas pessoas e não mais
trabalhando, a não ser em sua autobiografia. Louis Althusser morreu de ataque
cardíaco em 22 de outubro de 1990, aos 72 anos. A perda da memória estaria
relacionada com a degeneração dos neurônios cerebrais. E que, conforme o
indivíduo fosse envelhecendo, haveria uma perda evolutiva dessas células
nervosas, afetando assim a capacidade de memorização.
Vale
lembrar que na manhã de 7 de abril de 2011, o ex-aluno Wellington Menezes de
Oliveira, de 24 anos, invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira no bairro de
Realengo, na cidade do Rio de Janeiro,e atirou indiscriminadamente, contra
crianças e adolescentes que se encontravam em salas de aula, matando dez
meninas e dois meninos e ferindo outras vinte crianças. As crianças e os
adolescentes que fugiram enquanto o assassino recarregava suas armas
encontraram o sargento da polícia militar Márcio Alexandre Alves, que fazia
fiscalização de trânsito perto da escola. O sargento, ao chegar à escola ao som
de tiros, encontrou o criminoso saindo da sala onde baleara fatalmente oito
crianças, e efetuou dois disparos de arma longa, um dos quais atingiu o
assassino no abdômen. Ao cair, na escada que leva ao andar superior da escola,
Wellington disparou contra a própria cabeça, concretizando o suicídio. O evento
causou comoção nacional e repercutiu rapidamente em noticiários internacionais.
Do ponto de vista igualmente da representação da “tragédia”, do grego
antigo τραγδία, composto de τράγος “bode” e δή “canto”,é uma forma de drama, que se caracteriza pela sua
seriedade e dignidade, frequentemente envolvendo um conflito individual ou
coletivo entre uma personagem e algum poder de instância maior, como a lei, os
deuses, o destino ou a sociedade. Suas origens são obscuras, mas é certamente
derivada da rica poética e tradição religiosa da Grécia Antiga. Suas raízes
podem ser rastreadas mais especificamente nos ditirambos, os cantos e dança em
honra ao deus grego Dionísio, para lembramos de Friedrich Nietzsche, conhecido
entre os romanos como Baco. Dizia-se que estas apresentações etilizadas e
extáticas foram criadas pelos sátiros, seres meio bodes que cercavam Dionísio
em suas orgias, e as palavras gregas τράγος,
tragos, (bode) e δή, odé, (canto) foram combinadas na
palavra tragoidia (algo como
“canções dos bodes”), da qual a palavra “tragédia” é derivada.
Do ponto de vista da análise teórica
“assassínio em massa” ou “assassinato em massa”, também chamado de “massacre”,
é o ato de assassinar, simultaneamente ou em curto período de tempo, um grande
número de pessoas. Pode ser cometido por indivíduos ou organizações. Esse termo
também pode ser aplicado aos “assassinos em série” (cf. Braga, 2006; 2011;
Braga, 2012a; 2012b), que levam muitas vítimas à morte, mas não necessariamente
ao mesmo tempo.Os maiores assassínios em massa da história têm se confundido
com o genocídio, baseados frequentemente em conceitos étnicos ou religiosos. O
termo genocídio acabou se generalizando, mesmo que o massacre não tenha se
dirigido a grupos em particular (o que o caracterizaria).Fora de algum contexto
político, o termo “assassínio em massa” se refere ao ato de matar grande número
de pessoas ao mesmo tempo. Os exemplos incluiriam disparar uma arma de fogo
contra uma multidão, ou incendiar um local com grande concentração de pessoas.A
maior parte dos que cometem assassínios em massa se situam em três categorias:
a) aniquiladores de famílias; b) indivíduos com problemas mentais, onde casos
nos EUA são exemplares; c) trabalhadores contrariados.
A morte injusta de um grande número
de civis e prisioneiros de guerra também é chamada:“crime de guerra” e
inclusive pode ser denominado genocídio se estiver presente a motivação étnica
assim como aconteceu com a desagregação da Iugoslávia, durante a colonização
dos norte-americanos e a morte de milhares ou possivelmente milhões de hindus e
islâmicos pelas forças armadas do Paquistão em 1971. Outro exemplo horroroso é
o assassinato de mais de 4000 seres humanos sob as ordens de Augusto Pinochet
Ugarte no Chile nas décadas de 1970 e 1980 e começo da década de 1990, todos
impunes. Vale ressaltar também o “Massacre de MyLai”, durante a Guerra do
Vietnã onde soldados norte-americanos massacraram, em 1968, civis, dentre, em
sua maioria, crianças, mulheres e nem animais foram poupados. Em 1965, os
Estados Unidos enviaram tropas para sustentar o governo do Vietnã do Sul, que
se mostrava incapaz de debelar o movimento insurgente de nacionalistas e
comunistas, que se haviam juntado na Frente Nacional para a Libertação do
Vietname (FNL). Entretanto, apesar de seu imenso poder militar e econômico, os
norte-americanos falharam em seus objetivos, sendo obrigados a se retirarem do
país em 1973 e dois anos depois o Vietnã foi reunificado sob o governo
socialista, tornando-se oficialmente, em 1976, a República Socialista do
Vietnã. Os mandantes do massacre receberam apoio do então presidente Richard
Nixon e apenas um foi condenado e teve sua pena abrandada. Foi um dos maiores
massacres em guerras na história.
Existem vários significados
atribuídos à palavra “Carandiru”, de origem tupi-guarani. Combinação de “carandá
+ “iru”, alguns pesquisadores da historiografia defendem a tese de que ela
poderia significar “abelha da carnaúba”. Outros dizem que seria “um recipiente
feito de carandá” (carnaúba). Há quem diga que através dos anos mediante o
processo social e político de degradação humana seu significado passou a ser
“onde os ratos são dilacerados” ou, então, do ponto de vista da cultura “prisão
indígena similar à senzala dos negros”. Em 1967, a pesquisadora Maria da Penha
investigou a história social do bairro de Santana e constatou que, no local
onde se situava o sistema prisional Carandiru, existiu “uma fazenda com
resíduos preservados de uma senzala”. Enfim, seja qual for a etimologia da
palavra, todas elas de uma forma ou de outra se referem à violência concreta de
um sistema falido operacionalmente, sendo que o cinema já se incumbiu de
modificá-la, vendendo para o mundo inteiro Carandiru “como sinônimo de inferno”,
mas deveriam acrescentar:lembra Dante Alighieri (1265-1321), escritor, poeta e
político italiano. É considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana,
definido como “ilsommo poeta”, quando afirma: “vencer a crueldade que em prisão
me exila do redil onde, cordeiro, dormi, oposto aos lobos que o atacam” (“vinca
lacrudeltàchefuor mi serra delbelloovileov`io dormi' agnello, nimico ai lupiche
li danno guerra”).
Mal pondo os pés na Itália, o
imperador Henrique VII recebeu uma carta, curta, mas bajulatória, datada de 18
de abril de 1311. Nela o autor, um poeta esplêndido, depois de chamá-lo de
sucessor de César e de Augusto e, em versos, comentar que “o verdadeiro limite
do seu império era o oceano e o limite da sua fama as estrelas”, tomava a
liberdade de censurar o monarca na sua demora em pôr sítio a Florença. A
missiva era de Dante Alighieri que, quase sempre, se assinava como “florentino
injustamente desterrado”, que se encontrava banido da sua cidade natal desde
1302. Seu partido, o partido branco, havia sido expulso pelo partido rival, dos
negros, o partido guelfo, favorável ao poder papel e hostil ao do imperador.
Desgostoso com o longo exílio imposto que, como disse no célebre verso do
Paraíso: “Tu proverai si come sadisalelo pane altrui, e come è duro calleloscendere
e I'salir per altruiscale” (XVIII, 58), isto é: “onde se prova como é salgado o
pão alheio e como é duro o caminho de subir e descer pelas escadas dos outros”,
Dante apressava o imperador. Que deixasse de lado o cerco às pequenas cidades
rebeladas da Lombardia e se lançasse logo sobre aquela que, às ocultas,
fomentava insubordinação – “a víbora que morde as entranhas da própria mãe” –
“a perversa e ímpia Mirra” - a cidade de Florença. Dante e os guelfos brancos,
“gibelinos” escondidos, como se chamavam os seguidores do poder imperial, eram
uns reacionários empedernidos, representava, segundo Carducci,
“ilpopolovecchio”, ruínas sócio humanas do velho patriciado dos tempos antigos
que ainda sobreviviam espalhados pela Itália como se Roma não tivesse
sucumbido. Como consequência não aceitava a hegemonia do Papa sobre as cidades
italianas, afirmando que as intromissões da Cúria no universo da política não
passavam de puras usurpações.
Depois de 46 anos de existência, quase
metade deles sob a promessa de desativação, o maior símbolo do fracasso do
sistema prisional brasileiro finalmente começa a desaparecer. Três pavilhões da
Casa de Detenção, no complexo do Carandiru, zona norte de São Paulo, vem abaixo
para virar entulho às 11h do dia 08 de agosto de 2012.A história de mortes,
rebeliões, fugas e do chamado massacre do Carandiru, ocorrido em 1992, aparentemente
começa a mudar, segundo o governo do Estado, com o uso de 250 quilos de
explosivos (foto). Construído em 1956, pelo então prefeito Jânio Quadros (cf.
Braga, 2012), a Casa de Detenção “virou um modelo obsoleto e caro”. Nas últimas
contabilidades, “quando a população ainda ultrapassava 7.000 presos, as
instalações velhas geravam um custo só de água e energia elétrica de R$ 18
milhões ao ano”.Segundo a Secretaria Estadual da Administração Penitenciária,
nunca se fez o cálculo do custo do preso da Casa de Detenção em relação aos
outros presídios. Porém, segundo a secretaria, “era bem maior que a média atual
de R$ 660 mensais gastos por preso em regime fechado”.
Etnograficamente na plateia
montada para assistir a implosão de hoje, ao lado do palanque para as
autoridades, está reservado um espaço para quem diz ter até saudade da rotina
do que foi o maior presídio da América Latina. Entre eles, funcionários que
trabalharam décadas e até mesmo nasceram dentro da Casa de Detenção. José
Francisco dos Santos, 58, mais conhecido como Chiquinho da Detenção, passou os
últimos 22 anos no complexo, trabalhando no setor administrativo. Ele
presenciou -e foi refém- de inúmeras rebeliões e participou de episódios que
ele mesmo divide entre “felizes”, “tristes” e “engraçados”. Entre as histórias
engraçadas, Santos conta que, uma vez, um dos presos que teve o maior número de
entradas e saídas do presídio -foram 18 no total- chegou a implorar, de
joelhos, para que não o tirassem de dentro da Casa de Detenção. – “Olha, em
todos esses anos, vimos de tudo. Vou sentir falta, mas acho que estava mesmo na
hora de acabar”, afirma Chiquinho, que trabalhou “no arquivamento das fichas
dos presos”.
Foto:
representação do “Carandiru” de Hector Babenco.
Há dez anos, a casa de Detenção de
São Paulo, popularmente conhecida como Carandiru, derrubava grande parte de
seus pavilhões e encerrava a história de um dos presídios mais polêmicos da
América Latina. Para estimular a reflexão sobre o impacto do acontecimento na
capital paulista, o SESC Santana promove nos dias 13 e 27, duas sessões
cinematográficas com títulos que mergulham na complexidade do presídio pela
programação do evento “Vestígios do Carandiru”. Melhor dizendo: “Impressões da
Memória” é tema de mostra no SESC Vila Mariana. Além da mostra, a programação
da unidade também contará com exposição, oficinas e workshops de fotografia, intervenções artísticas entre outras
iniciativas que discutem o tema.Baseado no livro “Estação Carandiru”, de
Drauzio Varella, o longa-metragem narra a história de um médico (Luiz Carlos
Vasconcelos), que se oferece para realizar um trabalho de prevenção a AIDS no
maior presídio da América Latina, o Carandiru. Lá ele convive com a realidade
atrás das grades, que inclui violência, superlotação das celas e instalações
precárias. Porém, apesar de todos os problemas sociais, o médico logo percebe
que os prisioneiros não são figuras demoníacas, existindo dentro da prisão “solidariedade
orgânica”, para lembramos de Emile Durhheim, organização e uma grande vontade
de viver.
Os
laços que o agente Paulo Sérgio de Almeida Braga, 44, mantém com o complexo são
familiares. Seus avós trabalhavam no local como agentes. Seu pai e sua mãe se
conheceram -e se casaram- dentro do presídio.E ele, como os outros irmãos,
nasceu no local e, seguindo a vocação
da família, também prestou concurso para agente penitenciário aos 19 anos. Mas
só foi trabalhar no Carandiru em 1999. – “Meu pai levava a gente para cortar o
cabelo, almoçar com os detentos, os ver jogarem bola. Uma vez, até sentei do
lado da Luz Vermelha, e minha mãe trabalhou com o Chico Picadinho”, afirma,
relacionando nomes de bandidos famosos. Álvaro Alberto Moreira, 53, e agente
penitenciário desde 1977, conta que sentirá saudade principalmente das festas
de final de ano, tempo em que a cadeia ficava normal, “como os próprios
detentos definiam”.O espetáculo que tanto saudosos quanto críticos da Casa de
Detençãoassistiram durou apenas 7 segundos, de acordo com Manoel Dias, engenheiro
responsável pela implosão.
O
isolamento do local começou às 7h, quando o trânsito nas avenidas Cruzeiro do
Sul, general Pedro Leon Schneider e general Ataliba Leonel e na Rua Antônio dos
Santos Neto fora interrompido. O tráfego só fora liberado às 13horas. Os trens
foram parados nas estações Santana e Tietê dez minutos antes da implosão.
Segundo a Defesa Civil, 131 moradores foram retirados de suas casas durante a
implosão. – “Não podemos garantir 100%. Mas houve muito planejamento e todos os
cuidados foram tomados”, afirmou Dias. IranildeJulioti dos Santos, 27, recebeu
a carta da Defesa Civil notificando da retirada na sexta-feira da semana
passada. “Ela teme que os túneis cavados pelos presos provoquem problemas na
estrutura de sua casa no momento da implosão”.Mesmo os moradores que não terão
de deixar suas casas estão com medo de que a operação danifique os imóveis. – “Aqui
embaixo deve estar tudo esburacado. Não vou ficar em casa não”, disse Adriana
Nascimento da Silva, 23. O engenheiro disse que não devem ocorrer problemas.
Mesmo assim, sismógrafos foram colocados para medir a intensidade da implosão e
verificar possíveis danos nas proximidades.
Em
cima das camas vazias das celas, cartas recebidas e outras jamais enviadas
foram abandonadas. Abertas, jogadas por todos os lados, todas trazem relatos de
dor, desespero e amor pelos familiares distantes. Letras de música baseadas na
vida atrás das grades ou na realidade de quem vive rodeado pelo crime. Trecho 1
– “Minha condição é sinistra, não posso dar rolé(sic). Não posso dar bobeira na pista. Na vida que eu levo eu
não posso brincar, eu carrego uma 9 e uma HK”, diz um dos papéis jogados no
chão, citando a letra de “Soldado do Morro” do rapper MV Bill, que mora na Cidade de Deus, no Rio de
Janeiro.Trecho 2 – “Meu amor, espero que esta te encontre bem de saúde e em paz
com Deus. Por aqui as coisas não estão fáceis”. Assim começa uma das cartas
jogadas ao chão. Na sequência, a mulher do detento fala de uma mulher da
família, que saiu de casa para ir ao médico e não voltou mais. – “Da dó do
João, que é muito pequeno ainda. A vó faz comida para ele...”. Comenta também,
no vocabulário dos presos, sobre dinheiro. – “Quando a gente levou a jumbada
para você, não compramos cigarros, porque não tinha dinheiro”.
Na
gíria da prisão, a “jumbada” se refere às entregas de comida e produtos de
higiene que as famílias costumam levar em sacolas para os presos. Depois, pede
cuidado ao marido, que estava devendo dinheiro a outro preso. – “Você está
devendo aí. Vê se não se mete em encrenca”. Trecho 3 - Ao desejar saúde e paz a
um conhecido preso, uma mulher completa: - “Sei que é difícil desejar isso para
uma pessoa que se encontra desse lado”. Também fala sobre o futuro e de planos
para uma vida nova fora das grades. – “Quero que termine seus estudos e consiga
um trabalho legal, onde conheça pessoas legais também. Sei que pra você isso
pode parecer um sonho, mas sei que quando a gente corre atrás dos nossos objetivos,
uma hora a gente consegue”. Trecho 4 - Alguns enviam conselhos sobre como
aguentar a vida na prisão. – “Sobre a sua cadeia, fica irmão. Logo mais você
está na rua”, escreve um tio em regime semiaberto a um sobrinho ainda preso.
Manda lembranças a outros companheiros da prisão e termina: - “Para todos do
sofrimento, mais uma vez fica com Deus”. - Ex-detento: Durante a visita ao
presídio, a reportagem encontrou J.S., 33, que ficou preso durante 17 anos, 5
deles no Pavilhão 9, condenado por assalto a mão armada. Testemunha do massacre
de 1992, ele descreveu algumas das cenas que presenciou durante a rebelião. – “Todo
mundo que morava neste quarto morreu”, disse, apontando o cômodo vizinho ao que
ele mesmo ocupava, junto com mais sete presos. – “São coisas que eu nunca vou
esquecer”.Os nomes citados na reportagem foram “trocados” para preservar a
privacidade dos envolvidos, como se houvesse neutralidade no jornalismo
brasileiro e de resto no mundo ocidental!Bibliografia geral consultada:
Filme: “Carandiru” (Brasil, 2003, 148′, dir.: Hector Babenco);
TORRES, Maria Cecília Teixeira Mendes, “Bairro de Santana, Prefeitura de São
Paulo, Departamento de Cultura, 1970”. In: Meu
Cinema Brasileiro: Carandiru. Acesso em 13/07/2009; Artigo: “Carandiru tem
fim com implosão hoje às 11h”. Disponível no site: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/; Artigo: “Cartas de
presos e familiares mostram dor dentro e fora do Carandiru”. Disponível no
site: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/; Artigo: “Massacre
do Carandiru, que deixou 111 mortos, completa 10 anos”. Disponível no site http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/; Artigo: “Vestígios
do Carandiru relembra 10 anos da implosão do presídio”. Disponível no site: http://catracalivre.com.br/sp/; Artigo: “Massacre
do Carandiru, após 20 anos”. Disponível no site: http://www.terra.com.br/noticias/infograficos/carandiru/; Artigo: “Veja
frases do júri que condenou 23 PMs pelo massacre do Carandiru”. Disponível no
site: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/04/; RODRIGUES, Nina, As Coletividades Anormais. Rio de Janeiro: Editora Civilização
Brasileira, 1939;LE GOFF, Jacques, La
CivilizacióndelOccidente Medieval. 1ª edición. Barcelona: Editorial
Juventud, 1969; Idem, Por amor às
cidades: conversações com Jean Lebrun.
2ª edição. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1988; Idem, História e Memória. 2ª edição. São
Paulo: UNICAMP, 1990; Idem & NORA, Pierre, História – Novas Abordagens. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976;
BRAGA, Ubiracy de Souza, “Rebeliões da Cidade”. In: Jornal O Povo. Fortaleza, 27 de maio de 2006; Idem, “Jânio Quadros
renunciou há 50 anos. História & Memória”. Disponível em: http://espacoacademico.wordpress.com/2011/08/27/; Idem, “Terrorismo
de Estado”. In: http://alaninet.org; Idem, “Massacre de
Eldorado dos Carajás: 15 anos de impunidade”. : http://espacoacademico.wordpress.com/2011/04/30/; Idem, “Serial Killers brasileiros: origem e
significado da tragoidia”. In: http://espacoacademico.
com/2011/04/13/; Idem, “Os AIE revividos. O presentperfect de Louis Althusser”. In:
http://www.oreconcavo.com.br/2012/01/05/; FOUCAULT, Michel, Eu Pierre Rivière, que matei minha mãe,
minha irmã e meu irmão. Rio de Janeiro: Graal, 1983;MARTINS, José de Souza,
“Marx na nova encíclica do Papa”. In: Jornal
O Estado de São Paulo, 22 de janeiro de 2008; entre outros.
sábado, 3 de agosto de 2013
CASAL NORMAL
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Publicado por
Pedro Mourão
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Dominguinhos, um sanfoneiro singular - do baião ao jazz
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Publicado por
Pedro Mourão
Ubiracy de Souza Braga*
_____________________
* Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará.
“Eu,
com 9 anos, conheci um moço sem saber que era Luiz Gonzaga, no Hotel Tavares
Gouveia”. Dominguinhos
Escólio:
José Domingos de Morais nasceu em Garanhuns, no dia 12 de fevereiro de 1941 e
faleceu em São Paulo, em 23 de julho de 2013. Conhecido como Dominguinhos, foi
um instrumentista, cantor e compositor brasileiro. Exímio sanfoneiro teve como
mestres nomes como Luiz Gonzaga e Orlando Silveira. Na região Nordeste do Brasil,
o acordeão é popularmente denominado sanfona, embora este termo designe
originalmente um instrumento musical de cordas muito tensas, similar à rabeca.Em
sua formação musical, Dominguinhosrecebeu influências do baião, bossa nova,
choro, forró, xote e jazz.Em 1950, aos nove anos de idade, conheceu Luiz
Gonzaga quando tocava na porta do hotel em que este estava hospedado. Luiz
Gonzaga se impressionou com a desenvoltura do menino e o convidou a ir ao Rio
de Janeiro.A sua integração à equipe de músicos de Luís Gonzaga fez com que
ganhasse reputação como músico e arranjador e ele aproximou-se de músicos do
movimento bossa nova. Fez trabalhos junto a inúmeros músicos de renome, como
Gilberto Gil, Maria Bethânia, Elba Ramalho e
Toquinho, e eventualmente acabou por consolidar uma carreira musical própria,
englobando gêneros musicais diversos como bossa nova, jazz e pop.
Desnecessário dizer que a “Bossa
Nova” é considerada um subgênero musical, antropologicamente falando, derivado
do samba e com forte influência do jazz estadunidense, surgido no final da
década de 1950 no Rio de Janeiro. De início, o termo era apenas relativo a um
novo “modo de cantar” e “tocar samba” naquela época, ou seja, a uma
reformulação “estética dentro do moderno samba carioca urbano”. Com o passar
dos anos, a Bossa Nova tornar-se-ia um dos movimentos mais influentes da
história cultural da música popular brasileira, conhecido em todo o mundo e,
especialmente, associado a João Gilberto, Nara Leão, Vinicius de Moraes,
Antônio Carlos Jobim, Baden Powell e Luiz Bonfá e outros.A palavra “bossa”
apareceu pela primeira vez na década de 1930, em “Coisas Novas”, samba do
popular cantor Noel Rosa: O samba, a prontidão/e outras bossas,/são nossas
coisas (...). A expressão bossa nova passou a ser utilizado também na década
seguinte para aqueles “sambas de breque”, baseado no talento de improvisar
paradas súbitas durante a música para encaixar falas.
Alguns
críticos musicais destacam certa influência que a cultura norte-americana do
Pós-Guerra, de músicos como Stan Kenton, combinada ao impressionismo erudito,
de Debussy e Ravel, teve na bossa nova, especialmente do cool jazz e bebop.
Embora tenha pouca influência de música estrangeira como o Jazz, a Bossa Nova
possui elementos de samba sincopado. Além disso, havia um fundamental
inconformismo com o formato musical de época. Os cantores Dick Farney e Lúcio
Alves, que fizeram sucesso nos anos da década de 1950 com um jeito suave e
minimalista (em oposição a cantores de grande potência sonora) também são
considerados influências positivas sobre os garotos que fizeram a Bossa Nova.
Um embrião do movimento, já na década de 1950, eram as reuniões casuais, frutos
de encontros de um grupo de músicos da classe média carioca em apartamentos da
zona sul, como o de Nara Leão, na Avenida Atlântica, em Copacabana. Nestes
encontros, cada vez mais frequentes, a partir de 1957, um grupo se reunia para
fazer e ouvir música. Dentre os participantes estavam novos compositores da
música brasileira, como Billy Blanco, Carlos Lyra, Roberto Menescal e Sérgio
Ricardo, entre outros. O grupo foi aumentando, abraçando também Chico Feitosa,
João Gilberto, Luiz Carlos Vinhas, Ronaldo Bôscoli, entre outros.
Luiz
Gonzaga do Nascimento nasceu numa sexta-feira no dia 13 de dezembro de 1912,
numa casa de barro batido na Fazenda Caiçara, povoado do Araripe, a 12 km de
Exu (extremo oeste do estado de Pernambuco, a 610 km do Recife, a 69 km de
Crato e a 80 km de Juazeiro do Norte, (Ceará), segundo filho de Ana Batista de
Jesus (‘Mãe Santana’) e oitavo de Januário José dos Santos. O padre José
Fernandes de Medeiros o batizou na matriz de Exu em 5 de janeiro de 1913. Deveria
ter o mesmo nome do pai, mas na madrugada em que nasceu seu pai foi para o
terreiro da casa, viu uma estrela cadente e mudou de ideia. Era o dia de São
Luís Gonzaga no mês do Natal, o que explica a adoção do sobrenome Nascimento. O
lugar natal é no sopé da Serra do Araripe, e inspiraria uma de suas primeiras
composições, “Pé de Serra”. Seu pai trabalhava na roça, num latifúndio, e nas
horas vagas tocava acordeão; também consertava o instrumento. Foi na década de
1940 que o baião tornou-se popular, através dos músicos Luiz Gonzaga (conhecido
como o “rei do baião”) e Humberto Teixeira (“o doutor do baião”). O baião
utiliza muito os seguintes instrumentos musicais: viola caipira, sanfona,
triângulo, flauta doce e acordeom. Os sons destes instrumentos são intercalados
ao canto. A temática do baião é o cotidiano dos nordestinos e as dificuldades
da vida. O baião recebeu, na sua origem, influências das modas de viola, música
caipira e também de danças indígenas.
Reportagem
do Diário de Pernambuco (1957).
Foi
com ele que Luiz aprendeu a tocá-lo. Não era adolescente ainda quando passou a
se apresentar em bailes, forrós e feiras, de início acompanhando seu pai.
Autêntico representante da cultura nordestina manteve-se fiel às suas origens
mesmo seguindo carreira musical no sudeste do Brasil. O gênero musical que o
consagrou foi o baião. A canção emblemática de sua carreira foi “Asa Branca”,
composta em 1947 em parceria com o advogado cearense Humberto Teixeira. Antes
dos dezoito anos Luiz teve sua primeira paixão: Nazarena, uma moça da região.
Foi rejeitado pelo pai dela, o coronel Raimundo Deolindo, que não o queria para
genro e ameaçou-o de morte. Mesmo assim Luiz e Nazarena namoraram algum tempo
escondidos e planejavam o futuro. Januário e Santana lhe deram uma surra ao
descobrirem que ele se envolveu com a moça. Revoltado por não poder casar-se
com a moça, e por não querer morrer nas mãos do pai dela, Luiz Gonzaga fugiu de
casa e ingressou no exército no Crato (Ceará). Durante nove anos viajou por
vários estados brasileiros, como soldado, sem dar notícias à família. Não teve
mais nenhuma namorada.
Dominguinhos interessou-se
por música desde cedo, começando a aprender sanfona com seis anos de idade,
quando ganhou um pequeno acordeão de oito baixos e chegou a se apresentar em
feiras livres e portas de hotéis em troca de algum dinheiro junto com seus dois
irmãos, com quem formava o trio Os Três
Pingüins.Oriundo de família humilde, seu pai, mestre Chicão, era um
conhecido sanfoneiro e afinador de sanfonas. Disciplinado, praticava o
instrumento por horas a fio, e logo se tornou proficiente nas sanfonas de 48, 80 e 120 baixos, e acabou “por
tornar-se músico profissional ainda garoto”. Em 1950, aos nove anos de idade,
conheceu Luiz Gonzaga quando tocava na porta do hotel em que este estava
hospedado. Luiz Gonzaga (foto) se impressionou com a desenvoltura do menino e o
convidou a ir ao Rio de Janeiro. Foi no dia 13 de dezembro de 1956, durante a
comemoração do aniversário do Rei do Baião.Dominguinhos o fez em 1954, então
com treze anos de idade, acompanhado do pai e dos dois irmãos, indo morar no
município de Nilópolis, no estado do Rio de Janeiro, berço doGrêmio Recreativo
Escola de Samba Beija-Flor, Baixada Fluminense. Por vezes é chamada
informalmente de Beija-Flor de Nilópolis, numa referência à sua cidade de
origem, porém esta denominação não é oficial. Dominguinhos
tinha apenas 16 anos quando Luiz Gonzaga o apresentou como seu herdeiro
musical.
Ao
encontrar-se com Luiz Gonzaga no Rio (foto), este lhe deu de presente uma
sanfona e o integrou à sua equipe de músicos, e Dominguinhos passou a fazer
shows pelo Brasil e participar de gravações. Em uma dessas viagens, em 1967,
conhece a cantora de forró Anastácia, nome artístico de Lucinete Ferreira, com
quem se casa e forma uma parceria artística que duraria onze anos. Dominguinhos
já tinha um filho, Mauro, nascido em 1960 de seu primeiro casamento. Em 1976,
Dominguinhos conhece a também cantora Guadalupe Mendonça, seu terceiro
casamento, do qual nasceria uma filha, Liv. Separaram-se, mas mesmo após a
separação, os dois mantiveram a amizade até a morte do cantor. A sua integração
à equipe de músicos de Luís Gonzaga fez com que ganhasse reputação como músico
e arranjador e ele aproximou-se de músicos do movimento bossa nova(cf. Braga,
2012). Fez trabalhos junto a inúmeros músicos de renome, como Gilberto Gil,
Maria Bethânia, Elba Ramalho e Toquinho, e eventualmente acabou por consolidar
uma carreira musical própria, englobando gêneros musicais diversos como bossa
nova, jazz e pop.
Em
primeiro lugar do ponto de vista técnico-metodológico, o acordeão, também
chamado sanfona e gaita, é um instrumento musical aerofone de origem alemã,
composto por um fole, um diapasão e duas caixas harmónicas de madeira.
“Acordeão” e a corruptela acordeom
vêm do alemão akkordium, pelo
francês accordéon. Já “Sanfona” vem
do grego symphonía, pelo latim symphonia e pelo latim vulgar sumphonia. Na história social da música
o cheng é “o precursor do harmônio e
do acordeão, pois foi o primeiro a ser idealizado e construído na família dos
instrumentos de palheta”. De acordo com a região que era usada, o cheng recebia nomes diferentes: “schonofouye”,
“hounofouye”, “tcheng”, “cheng”, “khen”, “tamkim”, “yu”, “tchao” e “ho”. De
acordo com o padre jesuíta Amiot, o cheng
foi levado da China para São Petersburgo, na Rússia, onde Kratzenstein, na
verdade ChristienTheophile, doutor em filosofia, em medicina e professor da
Faculdade de Medicina da Universidade de Copenhague, nascido em Wernigerode, na
Prússia, em 1723, examinou o instrumento e verificou “que o seu agente sonoro
era uma lâmina de metal que vibrava por meio do sopro, produzindo sons graves e
agudos”.
Em
seguida ele sugeriu que Kirschnik aplicasse, nos tubos dos órgãos de sua
fabricação, esta lâmina livre de metal, o que foi feito em 1780. Da Rússia, passou
para a Europa, tendo a Alemanha tomado grande interesse, sobretudo nos
instrumentos de órgão. Foi daí que ChristienFriederich Ludwig Buschmann,
fabricante de instrumentos, teve a ideia de reunir várias lâminas afinadas e
fixadas numa placa formando uma escala cujos sons se faziam ouvir passando
rapidamente através do sopro, isto em 1822. Mais tarde, ele transformou esta
pequena placa num instrumento musical para brinquedo de criança, tocado com as
duas mãos, ao qual deu o nome de “handaolina” ou “harmônica de mão”. Para
tanto, aumentou o número de palhetas de metal e o tamanho do aparelho,
anexando- lhe um pequeno fole e uma série de botões. Este instrumento, depois,
segundo a história, foi aperfeiçoado por Koechel e, 7 anos mais tarde, o
austríaco Cirilo Demian construiu, em Viena, um instrumento rudimentar de
palheta livre, teclado e fole, ao qual, em virtude de ter 4 botões na parte da
mão esquerda que, ao serem tocados com os dedos afundados, “permitiam a
obtenção do acorde, deu o nome de acordeão, nome que ficou
definitivamente ligado ao instrumento através de inúmeros aperfeiçoamentos”.
Historicamente
o sistema de palheta livre já havia sido aperfeiçoado por Grenié em 1810, na
França, sendo rico em sonoridade e dando origem ao órgão. O francês Pinsonat
empregou o mesmo sistema no alamiré ou diapasão tubular que veio a chamar-se “tipófono”
ou “tipótono” e do qual se originou a gaita de boca, cuja invenção se deve a
Eschenbach. A gaita de boca é um conjunto de palhetas metálicas como linguetas,
dispostas cada uma em seu caixilho e vibradas pelo ar soprado pela boca. Na
França, o acordeão foi aperfeiçoado em 1837 por C. Buffet. Segundo todos os
tratados sobre o assunto, o acordeão nada mais é do que o aperfeiçoamento de diversos
instrumentos do mesmo gênero, como o “oeline de Eschenbach”, o “aerophone de
Christian Dietz”, “a physarmónica de Hackel” etc., tomando, desde esta data,
sua forma definitiva, seu desenvolvimento concreto mais rico e seus variados
registros para mudança de intensidade e timbre do som.
Mais
tarde, com a escala cromática, o acordeão pôde produzir qualquer melodia ou
harmonia e inúmeros fabricantes o aperfeiçoaram colocando registros, tanto na
mão direita com na esquerda, para maior variedade de sons. Contudo, vale
lembrar que é na Itália que se fabricam os melhores acordeões, tendo sido os
primeiros construídos em 1863 em Castelfidardo, em Ancona, surgindo depois
Paolo Soprani e Stradella-Dellapé. Nos Estados Unidos, há diversas fábricas,
sendo a marca Excelsior a mais famosa. Na Alemanha, foi construído o primeiro
acordeão em 1822, em Berlim. Vem desse país a marca Hohner.No Brasil, também
tiveram grande destaque os acordeões Todeschini, da cidade de Bento Gonçalves,
no Rio Grande do Sul. Mesmo com uma interrupção na fabricação de mais de 30
anos, os acordeões desta marca continuam tendo preferência nacional por ter um
som inconfundível. Ao longo de sua história, a Todeschini produziu mais de 170
000 acordeões. A qualidade dos produtos era tão grande que a Todeschini passou
a fabricar acordeões para a marca Hohner. Estes eram exportados para os Estados
Unidos.
Ainda
no Brasil, uma família importante na história do Acordeon são os Bertussi.
Através da sua música de grande qualidade, os Irmãos Bertussi (Adelar e
Honeide), eram consultados para dar suas opiniões na confecção dos Acordeons
Todeschini. É possível conhecer esta história através do memorial localizado no
Rio Grande do Sul, onde se encontra aberto à visitação pública, anexo tem a
casa histórica da família Bertussi. Os “Irmãos Bertussi” marcaram a época na
música Brasileira a partir de 1955, porém a saga desta família Italiana
atravessa todo o século XX na música do Rio Grande do Sul, iniciando-se com a
chegada de João Bertussi Filho (pai de FioravanteBertussi) na leva de imigrantes
XIX. Estabelecidos na região serrana, “Os Bertussi” difundiram instrumentos
musicais (especialmente a gaita) através de seu entreposto comercial. Criaram
uma escola musical baseada na técnica apurada e na leitura musical.
Talvez
a cultura gaúcha nem possa dimensionar ainda a influência e real importância
dos “Bertussi”, mas, eles representam diretamente a ascendência Italiana na
sociedade gaúcha do século XX e todos os seus significados. “Os Bertussi”
infundem uma escola musical de baile, com música apropriada para a dança e a
alegria característica do povo Italiano.Somando a isso, ainda há que se frisar
o aspecto importante do espírito inovador destes músicos.A primeira grande
revolução que causaram foi a de utilizar dois acordeons ao invés da costumeira
dupla violão/acordeom.Isto só foi possível, porque Adelar e Honeide eram
exímios instrumentistas e escreviam as partituras rearranjando os temas de modo
que os instrumentos se completassem. Era como um só acordeom tocando a quatro
mãos. Anos depois, já no início dos anos 1950, Incorporaram a bateria ao baile
gaúcho.
Bateria
era, então, um instrumento utilizado pelos jazzistas e havia entrado no Rio
Grande do Sul a partir de 1924. “Os Bertussi” sabiam o que queriam.Na época não
existiam equipamentos de som: microfones, amplificadores e caixas de som são
coisas dos anos 1960. Precisavam de volume, de potência sonora para os bailes
cada vez maiores. Assim é que “Os Bertussi” estiveram na linha de frente da
música ao gravar temas eruditos em acordeom para o mercado nacional e ao
revolucionar a execução musical dentro do estado. Esta saga vitoriosa cruza
todo o século XX e adentra o século XXI.Adelar e seu irmão foram os pioneiros
da música tradicionalista gaúcha, e também foi o primeiro grupo a incluir a bateria
em bailes, fato inédito, porque na época os artistas se apresentavam nos bailes
com um pandeiro, uma gaita, um violão e um bumbo legüero.Hoje Adelar
apresenta-se em shows pelo Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Na
véspera de viajar para Exu, a fim de participar das comemorações pelo
centenário de Luiz Gonzaga, Dominguinhos foi tomado de uma imensa angústia.
Estava debilitado, depois de mais uma sessão de quimioterapia. Estava chorando
quando chamou a mulher, a cantora Guadalupe, para conversar. Ela lhe disse que
ele podia celebrar Luiz Gonzaga no show que aconteceria no Parque Dona Lindu,
não precisava fazer a cansativa viagem ao sertão, de carro, já que
Dominguinhos, há anos, não viaja de avião: “Eu disse que ele não podia ir. Ele
teimou e foi dois dias antes, como se temesse ficar impossibilitado de ir. Acho
que ele sabia que ia ter consequência. Porém criaram muita expectativa em torno
dele, como principal herdeiro de Luiz Gonzaga. Ele pagou pra ver, e o preço foi
alto”. O comentário é da cantora Guadalupe Mendonça, que convive com
Dominguinhos há 37 anos, e com quem teve a também cantora Liv Moraes. Ela e
Dominguinhos se casaram, e se separaram, mas amizade continuou. Ela e a filha
acompanham o drama do artista muito antes de se tornar público que ele estava
acometido de um câncer no pulmão: “Diziam que ele não duraria seis meses, e já
se passaram seis meses. A gente, eu e Liv, acompanhava, monitorando de longe.
Quando viajava, eles ligavam pelo menos quatro vezes por dia. Mas não tem sido fácil.
Passei a tomar antidepressivo”, revela Guadalupe.
Os
dois se conheceram no Rio, no final dos anos 1970, mas Guadalupe confessa “que
se apaixonou por Dominguinhos a primeira vez que o viu no palco”, num show de
Nara Leão: “Eu estava prestes a sair do Brasil, tinha sido contratada por um
produtor inglês para dançar no Molin
Rouge, em Paris. Mas quando começou o show, uma das músicas foi Folhetim,
que não havia ainda sido gravada, comecei a chorar. Comecei a me dizer que não
podia sair do Brasil, que precisava daquilo. Quando terminou o show sai
correndo feito uma louca para o camarim. Queria falar com. Pedi para me
apresentaram o sanfoneiro”. A facilidade de chegar ao camarim, porque ele foi
com o tio, o ator Luiz Mendonça, e quem produzia o show era o pernambucano
Wellington Lima, na época então casado com Xuruca Pacheco, prima de Guadalupe.
A primeira vez que ela viu Dominguinhos foi a Fazenda Nova, ainda adolescente.
Ele tinha ido participar do primeiro festival de verão que aconteceu no teatro
ao ar livre. Dominguinhos na época tocava com Gal Costa: “Os melhores momentos
da minha vida aconteceram em Fazenda Nova. Comecei a fazer a Paixão de Cristo com quatro anos de
idade”, conta Guadalupe (foto).
Foi
o avô dela, Epaminondas Mendonça, líder político da região, que iniciou, com
sua mulher, Sebastiana Mendonça, a Paixão
de Cristo, em 1951. O filho dele, Luiz Mendonça, “foi o primeiro Cristo na
encenação do drama sacro”. Mesmo com antecedentes na família, o pai de
Guadalupe, o deputado Paulo Lucena de Mendonça, proibiu a filha de seguir a
carreira artística: - “Sofri violência doméstica. Meu pai me proibia de pensar,
de viver”, confessa Guadalupe. Mas não adiantou. No Recife, ela começou a
participar de programas no Canal 2 (atual TV Jornal). Quando se tornou
impossível continuar cantando, pelas imposições do pai, Guadalupe conta que,
com 18 anos, fugiu para São Paulo: - “Conheci Marcio Fasano, quando ele veio ao
Recife com a peça:“Computa, computador, computa”, de Millôr Fernandes. Fiquei
hospedada na casa dos avós dele em São Paulo. Trabalhei como modelo, participei
do musical:“Onde canta o sabiá”, com direção de Tânia Alves”, conta Guadalupe.
Tânia Alves participou do grupo “Chegança, de Luiz Mendonça”.
De
São Paulo ela foi para o Rio, morar na casa de Luiz Mendonça, ator com carreira
estabelecida, e que incentivava a sobrinha: - “Comecei a ganhar dinheiro
fazendo fotonovelas, tinha muito naquele tempo, Contigo, Capricho, Sétimo Céu.
Minha tia, Diva, mandou uma carta para Daniel Filho, e passei a fazer pontas em
novelas da rede Globo. A primeira de que participei foi Dancing days”. E aí veio o show com Dominguinhos e Nara Leão: - “Sai
andando pelos corredores do teatro e, de repente, lá vem Dominguinhos
caminhando em minha direção. Só nós dois. Ele perguntou se eu tinha gostado do
show. Disse que estava apaixonada por ele. Fui para São Paulo, e não parava de
pensar em Dominguinhos. Quando voltei para o Rio, encontrei por acaso, diante
do Teatro Carlos Gomes, o zabumbeiro que tocava com ele. Mandei um beijo para
Dominguinhos”.
O
estado de coma do cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano Dominguinhos é
irreversível, segundo o filho dele, Mauro da Silva Moraes. Mauro confirmou,
nesta sexta-feira, 17/07 que recebeu a informação do médico Paulo Marchiori, do
Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, no dia 25 de fevereiro. A família vinha
mantendo a informação em sigilo, mas o filho resolveu falar. A família diz que
retardou a divulgação da notícia para preservar o compositor. – “O médico me
disse pessoalmente que o coma é irreversível. Estávamos tentando resguardar,
estou respeitando muito meu pai, mas tem uma hora que você não aguenta”, disse
Mauro, filho do primeiro casamento do músico. Os dedos de Seu Domingos se movem
lentamente. Há meses estavam duros, em nada parecidos com aqueles que a diva do
jazz Sara Vaughan beijou depois de vê-los incendiar as teclas de uma sanfona no
Free Jazz Festival de 1987.
Nem
de longe os mesmos que Luiz Gonzaga nomeou herdeiros legítimos de seu reinado.
Ao sentir a mão da mulher Guadalupe (2013) tocar a sua, Dominguinhos a aperta
forte. Sua reação mais comovente depois de oito enfartes, 23 minutos sem
oxigenação no cérebro, uma traqueostomia, dois meses na UTI e desavenças familiares
sobre seu próprio leito até parece milagre.A luta do maior músico da cultura
nordestina, um dos mais geniais instrumentistas do País, se dá em um quarto do
Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Assim que foi diagnosticado com um câncer
de pulmão, fez tratamentos de rádio e quimioterapia sem jamais falar sobre a
doença com a imprensa. Sua incapacidade de dizer não, mesmo debilitado, o
levou, em dezembro de 2012, até Exu, no interior de Pernambuco, para tocar nos
100 anos de nascimento de Luiz Gonzaga. Uma decisão difícil, tomada depois de
uma noite de lágrimas como respostas às súplicas de Guadalupe. – “Eu dizia para
ele não ir e ele só chorava. Ele nunca diz não”.
Como
não entra em avião “nem sob tortura”, Dominguinhos saiu de carro de Recife para
Exu. A cada dois quilômetros, ligava para dizer a Guadalupe como estava. Em uma
ligação, reclamou de febre. – “Então volta, homem. Volta pelo amor de Deus”,
ela implorou. Domingos foi até o fim e tocou já sentindo o pulmão fechar.
Quatro dias depois, passou mal, foi internado e começou a lutar pela vida. Três
rapazes chegaram quarta-feira do Recife só para ver Dominguinhos. Era um sonho
conhecer o mestre. Guadalupe aceitou levá-los até o quarto. Enquanto Domingos dormia,
ela contava sobre o dia em que o “trouxe de volta”. Guadalupe implorava para
que o marido saísse de seu estado de inconsciência. – “Domingos, acorde. Sei
que você está me ouvindo. Venha comigo homem, você consegue. Pegue nas mãos
desse homem de branco a seu lado e venha...”. De repente, nas lembranças de
Guadalupe, o sanfoneiro levou o tronco para frente e ergueu os braços. Quando
tentou falar, percebeu que não podia e, então, sua expressão foi de pânico.
Guadalupe
contava esta história quando percebeu que os rapazes não olhavam surpresos mais
para ela, mas para Dominguinhos. Seu Domingos, notou a mulher, estava acordado
e chorando. – “Ele ouviu o que eu disse e se emocionou”. Ela não chamou os médicos,
só confortou o paciente. - “Não desista,
não deixe o que aconteceu hoje abalar você”. Antes dos três fãs chegarem do
Recife para beijarem suas mãos, uma cena triste vivida sobre seu leito pela
segunda vez deixou Dominguinhos visivelmente triste.Quem passou pelo hospital
foi Mauro Moraes, filho do sanfoneiro e de Janete, sua primeira mulher. Mauro,
53 anos, não tem boas relações nem com Guadalupe, a segunda esposa de Domingos,
nem com Liv, a filha do casal. Segundo testemunhas, Mauro chegou para visitar o
pai quando se desentendeu com Márcio, o acompanhante que Guadalupe contratou
para ficar o tempo todo ao lado de Dominguinhos. Mauro pediu para ficar a sós
com o pai, mas Márcio se negou a deixar o quarto. Mauro então teria começado
uma discussão acalorada com Márcio, pedindo privacidade e dizendo que ninguém
teria o direito de fazer aquilo com ele. O clima esquentou e impropérios foram
trocados.
Guadalupe
não gosta de alimentar discussões, mas diz estar exausta das desavenças
provocadas por Mauro. Em março, sites publicaram frases do rapaz dizendo que seu
pai estava “em coma irreversível”, informação nunca confirmada pelo hospital.
Dias depois, redes sociais multiplicavam o boato de que Dominguinhos havia
morrido. – “Você imagina as pessoas me ligando dizendo que meu pai morreu”,
conta Liv. “Quando disse que ele estava em coma irreversível, só repeti o que
um médico disse para mim”. O Sírio Libanês não dá notícias que vão além de um
boletim divulgado em 18 de março: - “Houve melhora do quadro cardiológico,
respiratório e renal. Do ponto de vista neurológico, ele apresenta estado
minimamente consciente, demonstrando discretos sinais de recuperação. O
paciente permanece internado, sem previsão de alta”. O coração de José Domingos de Moraes, 72 anos,
“tem o tamanho do mundo e segue batendo no ritmo de um xote doído e comovente...”.
O
cantor e compositor pernambucano Dominguinhos, conhecido como “rei da sanfona”,
morreu às 18h, aos 72 anos, em decorrência de complicações infecciosas e
cardíacas. Ele estava internado no hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Pouco
depois da morte, vários artistas se manifestaram para lamentar a perda do
músico.A cantora Ivete Sangalo postou no Instagram
uma foto “em que aparece ao lado do sanfoneiro”. Na legenda, escreveu: - “Vá em
paz, Dominguinhos. Sentirei saudade do seu sorriso, mas você é maravilhoso e
nos deixou a sua música”. Chico Buarque
disse: “Muito triste. Perdi um amigo e um parceiro querido”. Também pelo Instagram, a cantora Roberta Miranda
disse: “Minha homenagem ao nosso querido Dominguinhos!! Tive o prazer de
homenagear com a música “Forrepeando”. Ele tocou sua linda Sanfona e sorriu
muito na frase (mas pra tocar este fole com tanto carinho, tem que ser
Dominguinhos ) #triste”.
A
cantora Elba Ramalho postou: “Lá se vai, o meu amor, deixando uma grande
saudade... Dominguinhos, eterno amor, amizade sincera!!”. Gal Costa postou “uma
foto antiga ao lado do sanfoneiro” em sua conta no Instagram com a frase: “Saudades de Dominguinhos. Muita mesmo!”. O
cantor Luciano, da dupla Zezé di Camargo e Luciano, postou uma foto com a
legenda: “Descanse em paz, meu grande amigo”.Integrante da dupla Cesar Menotti
e Fabiano,Cesar Menotti lamentou: “O povo triste e a cultura nacional
infinitamente mais pobre. O Sanfoneiro Ouro partiu. #luto”. O apresentador
Britto Jr. disse: “Meus sentimentos à família de Dominguinhos. O bailão não tem
hora pra terminar lá no céu!”.O cantor Luan Santana escreveu: “Aonde quer que
você vá Seja onde for Me leva, Me leva... Seja como for seu mundo Se você me
leva eu vou...”. Deus levou um dos maiores nomes da história da nossa música!
Descanse em paz Dominguinhos!”. O apresentador Rafael Cortez disse no Twitter: “Triste a morte de
Dominguinhos. Mas me contento em saber q ele agora reencontra amigos saudosos
no outro lado, onde chega amparado e querido”.
A
cantora Preta Gil postou uma foto do cantor no Instagram com a mensagem: “Mestre dos mestres Dominguinhos,
descanse em Paz!! #saudade". O cantor Falcão também se manifestou:
"#Tristeza Partiu Dominguinhos. Vá com Deus, amigo!”. O cantor China
escreveu no Twitter: “agora que o
forró no céu vai ficar bom! voa, dominguinhos... voa!”. Paula Lima, cantora,
disse: “Dominguinhos: Genialidade, Musicalidade, Serenidade, Elegância e
Brasilidade! #DescanseEmPazDominguinhos”.O compositor de axé Tonho Matéria
disse no Twitter: Mais um gênio se
vai e deixa sua marca na mente do povo nordestino. #Adeus meu caro e amado
mestre #Dominguinhos!". A cantora Karina Buhr postou: “DOMINGUINHOS,
preciosidade dessa vida!! E das outras vidas...”. O cantorTatau da banda
Araketu disse: - “Uma grande perda para a música brasileira! Descanse em paz
Dominguinhos... “Sempre terá o meu respeito e admiração”.
Entre os prêmios recentes que recebeu por sua obra, em 2002, foi vencedor do Grammy Latino com o disco “Chegando de
Mansinho”. Em 2007, ganhou o prêmio TIM na categoria Melhor Cantor Regional
pelo álbum: “Conterrâneos” (2006) e no ano de 2010 foi homenageado no Prêmio Shell de Música Brasileira, recebendo a
premiação pelo conjunto da obra. Bibliografia geral consultada:
BRAGA, Ubiracy de
Souza, “Etta James: At Last. Ensaio
de Etnomusicologia”. Disponível no site: http://estudosviquianos.blogspot.com.br/2012/03/; Idem, “Forró:
Dança, rebolado, beleza e internacionalização do gênero”. Disponível em: http://httpestudosviquianosblogspotcom.dihitt.com/n/arte-cultura/2012/05/29/; Idem, “Jorge Ben
Jor, 70 anos do Poeta da Simpatia”. Disponível no site: http://www.oreconcavo.com.br/2012/05/17; Idem, “Gilberto
Gil, fruto de uma geração luminosa”. Disponível em: http://www.oreconcavo.com.br/2012/06/29/; Idem, “Há 50 Anos o
Mundo (en) Canta Garota de Ipanema”.
Disponível no site: http://estudosviquianos.blogspot.com.br/2012/03/; Idem, “Jorge
Mautner: memória do filho do caos”. Disponível em: http://www.oreconcavo.com.br/2013/02/06/; CANTEL, Raymond, Les Prophetiesdanslalitteraturepopulaire du
Nordeste. Caravelle. /Toulouse, (15), 1970; GUSDORF, George, La Palabra. Buenos Aires: Ediciones
Nueva Visión, 1971; HEGEL, G. W. F., Fenomenologia
delloSpirito. Florença: La Nuova Itália, 1973, 2 volumes; Idem, “A
Fenomenologia do Espírito” (Excerto). In: Os
Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980;ENZENSBERGER, Hans Magnus, Palaver - PolitischeÜberlegungen
(1967-1973).EditionSuhrkampVerlag Frankfurt amMain 1974;GERBER, Raquel, O Mito da Civilização Atlântica - Glauber
Rocha e o cinema Novo, cinema e sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1978; Artigo:“Dominguinhos, herdeiro fiel”. Disponível no site: http://www.millarch.org/artigo/; Luiz Gonzaga: Vozes do Brasil. São
Paulo: Martin Claret, 1990; Ângelo, Assis, Eu
Vou Contar pra Vocês. São Paulo: Ícone, 1990;MORIN, Edgar, La complexitéhumaine. Paris: ÉditionsFlammarion,
1994;AZEVEDO, Antônio Carlos do Amaral, Dicionário
de nomes, termos e conceitos históricos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1996; Dominique,Vida do Viajante: A saga
de Luiz Gonzaga. 2ª ed. São Paulo: Editora
34, 1997; EIZING, Barbara; VELOSO, Caetano, Tropical
Truth: A Story of Music and Revolution in Brazil.Nova York: Da Capo
Press, 2003; VENTURA, Thiago,MPB completa
20 anos sem Luiz Gonzaga (2009); BECKER, Howard S., Falando da Sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2009; Artigo: “Guadalupe
conta sua história com Dominguinhos”. Disponível no site: http://jconline.ne10.uol.com.br//2013/04/01/; Artigo: “Veja e
leia reportagem de 1957 em que Luiz Gonzaga apresenta Dominguinhos como seu
sucessor”. Disponível em: http://blogs.diariodepernambuco.com.br/play/; Artigo: “Sereno
adeus a Dominguinhos, o discípulo maior de Gonzagão”. In: Fortaleza: Diário do
Nordeste, 24 de julho de 2013, entre outros.
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